terça-feira, 21 de outubro de 2014

Entidade

Havia duas semanas que ele vinha sentindo algo perturbador. Não sabia definir exatamente o que era aquela sensação incômoda que o deixava extremamente agoniado. Evitava falar sobre o assunto com outras pessoas, pelo simples fato de saber que seria mal interpretado. Não era culpa das pessoas, mas sim do vocabulário ineficiente de que a humanidade dispunha.
Durante todas as noites ele vinha experienciando o chamado "sonho lúcido". Nunca, em seus 28 anos de idade, tivera qualquer episódio de catalepsia. Depois da primeira experiência, custava-lhe adormecer, pois os sonhos estavam ficando cada vez mais intensos. Na última semana, havia se arrependido da ideia de morar em um loft, pois seu quarto nada mais era do que o mezanino. Nos sonhos lúcidos, a figura sombria de suas alucinações aparecia no parapeito do mezanino, como se estivesse flutuando, e avançava lentamente em sua direção, pressionando-o contra a cama, enquanto ele tentava desesperadamente abrir os olhos e alcançar o interruptor. Era simplesmente aterrorizador ter consciência de que estava sonhando e não poder fazer nada a respeito disso. 
Quando os sonhos começaram, ele pensou que pudessem ter relação com seu grande fascínio pelo ocultismo. Ultimamente, vinha pesquisando incansavelmente sobre o tema. Não se restringia a apenas uma vertente religiosa, mas abraçava a filosofia de todas. A única ideia que não lhe servia para nada era o maniqueísmo. Não acreditava na divisão simplória do mundo entre bem e mal, pois sabia que o comportamento e a mentalidade humanos eram complexos demais para serem resumidos a dois caminhos. Por isso, ignorava completamente a existência de forças ou espíritos malignos. Mas talvez o mundo oculto quisesse lhe mostrar alguma coisa. Talvez fosse uma forma de lhe dizerem "mantenha distância".

Foi no dia 31 de outubro que o horrível aconteceu. Ele estava deitado em sua cama king size e assistia à uma maratona dos filmes "Halloween", como sempre fazia nessa data em todos os anos. Não sabia explicar o motivo pelo qual a data o atraía tanto, mas captava algo diferente na ocasião e sentia-se na obrigação de celebrar.
Eram 23:30 e assistia a Halloween V, quando o sono o abraçou de vez. Diferente de todas as outras noites, o sonho lúcido não veio. Ao invés disso, foi arrancado violentamente do sono por um sussurro bem ao pé de seu ouvido. O ar quente veio junto com o som, fazendo com que um calafrio tomasse conta de todo o seu corpo imediatamente. Virou-se rapidamente de barriga para cima e sentou-se, fitando o vazio. A TV exibia a tela do menu inicial do DVD Player. Olhou para os lados e não viu coisa alguma.
- Que besteira! - disse para si mesmo, procurando os controles remotos dos equipamentos. Ele jurava que os tinha deixado ao lado do travesseiro como sempre fizera. Estava sonolento demais para ficar procurando pelo quarto. Então, levantou-se da cama e apertou o botão "power" do DVD e em seguida o da TV. A única coisa que continuava a iluminar fracamente o quarto era o abajur de lava, que ficava em cima do criado mudo. Mas a pouca luminosidade foi o suficiente para permitir que ele visse o reflexo da figura humana na televisão desligada. O ritmo cardíaco acelerou e as extremidades de seu corpo ficaram geladas. O estômago parecia se contorcer, enquanto o resto do corpo permanecia estático.  Levou um tempo até que conseguisse juntar força para se virar para trás e notar que não havia ninguém no quarto. Estava sozinho e, achar que estava sendo assombrado era pura estupidez. 
"Minha mente está tentando me pregar uma peça". Pensou, embora não acreditasse totalmente naquilo. Era quase como se sentisse uma presença imaterial ali perto.
Ignorando completamente a sensação, deitou-se novamente na cama e fitou o teto escuro. À medida que seu corpo se acalmava, os olhos iam ficando cada vez mais pesados, até finalmente se fecharem. Estava prestes a pegar no sono, quando ouviu o barulho de algo se arrastando embaixo da cama. Abriu os olhos imediatamente e ouviu com atenção. Não havia qualquer ruído. Será que estava sofrendo de alucinações por conta do distúrbio do sono?
Estendeu a mão até o criado mudo, abriu a primeira gaveta e tateou em busca da faca de caça que guardava para uma eventual emergência. Depois de fechar as mãos firmemente sobre o punho da faca, esgueirou o corpo pela beirada da cama e tentou encontrar o que havia produzido o barulho. Nada.
Voltou a se deitar de barriga para cima e segurou a faca com as duas mãos junto à barriga. Não tinha fé em qualquer divindade, mas naquele momento rezou com todas as forças.
- Não há escapatória. - sussurrou uma voz em seu ouvido, fazendo com que pulasse da cama e caísse de costas no chão. Colocou-se de pé no mesmo segundo e empunhou a faca na direção da cama.
- O que você quer? - gritou, afastando-se em direção à escada.
- Você saberá. - a voz fria veio do seu lado direito. Ele olhou naquela direção e não viu coisa alguma. Quando voltou a olhar para a frente, o rosto negro e putrefato do vulto se materializou a centímetros do seu. O homem se assustou, perdendo equilíbrio e rolando escada abaixo, até cair estatelado no chão da sala. Ainda segurava a faca na mão. Rapidamente, colocou-se de pé e disparou para a porta de entrada. As chaves. Tinha esquecido as chaves no bolso da jaqueta, pendurada no cabideiro de seu quarto. Merda!
Correu a toda a velocidade de volta para o quarto, tropeçando duas vezes na escada. Sentia a presença da entidade ficando cada vez mais intensa e sufocante, como se estivesse fechando as mãos sobre sua alma. Quando finalmente chegou ao cabideiro, enfiou a mão pelos bolsos da jaqueta e, no momento em que fechou as mãos sobre o chaveiro, viu os fios de cabelo preto caindo pelos ombros da jaqueta e os olhos vermelhos reluzindo na escuridão. Tentou tirar a mão de dentro do bolso, mas não conseguiu. Alguma força sobre-humana a mantinha lá dentro.
- Me larga, porra. - Gritou, golpeando inutilmente a jaqueta com a faca. Então, sentiu dedos humanos se fecharem sobre o punho da mão que segurava a faca. Sem que pudesse fazer qualquer coisa para se livrar daquilo, seu braço foi levantado para cima e baixado violentamente sobre sua própria barriga. A faca de caça penetrou em sua pele, rompendo a musculatura abdominal e acertando algum órgão interno. A dor irradiou daquela região e ele gritou o mais alto que pôde. Por que diabos escolhera um lugar tão afastado para morar?
A força sobre-humana em suas duas mãos aliviou e ele conseguiu se afastar do cabideiro, ainda segurando o punho da faca. Sabia que não deveria puxar a lâmina antes de chegar a um hospital. No cabideiro, restava apenas a jaqueta de couro, intacta.
Antes que pudesse tomar qualquer atitude, a mão invisível se fechou novamente sobre seu punho e puxou o braço com força, retirando a faca de sua barriga e fazendo com que uma cascata de sangue jorrasse do ferimento. Levou a outra mão ao local, tentando estancar o sangue que escorria pelos dedos. Desobedecendo sua própria vontade, a mão segurando a faca desceu novamente, enterrando a lâmina no mesmo local. Dessa vez, ele não gritou, pois faltou-lhe ar para produzir qualquer ruído. O golpe fez com que andasse para trás. A mão levantou e golpeou o ferimento mais três vezes, fazendo com que se afastasse cada vez mais e se chocasse contra o parapeito do mezanino. Suas costas se curvaram e ele perdeu o equilíbrio, caindo de costas em cima da mesa de vidro da sala, que se estilhaçou. A faca voou para o lado com o impacto e ele ficou caído de costas. O sangue escorria cada vez mais do ferimento e, rapidamente, seu corpo adquiria uma cor pálida. Com muito custo, virou-se de barriga para baixo e começou a engatinhar. Então, a força invisível fez com que parasse novamente. A mesma mão que segurava a faca foi levada até o ferimento, ficando encharcada de sangue. A força fechou os quatro dedos da mão, deixando somente o indicador estendido. Movimentou a mão, de forma que o indicador rabiscasse um desenho no porcelanato. O grande pentagrama invertido, feito com sangue, brilhou intensamente, iluminando todo o loft. O homem, exaurido, sentiu sua consciência se apagar. Depois de alguns segundos, seu corpo sem vida desabou sobre o pentagrama. A poça de sangue se espalhou para os lados e um silêncio sepulcral tomou conta da noite.
O pentagrama brilhou ainda mais intensamente, fazendo com que a luz penetrasse completamente no cadáver. Então, como se tivesse sido reanimado, o corpo começou a se contrair violentamente. Os tremores se propagaram por todo o corpo e a ferida do abdome cicatrizou. Depois de alguns minutos, o corpo finalmente parou de se mexer e os olhos se abriram. A íris esquerda estava completamente esbranquiçada, enquanto a direita mantinha a tonalidade esverdeada natural. Vagarosamente, o homem se colocou de joelhos e se levantou. Observou as próprias mãos e sorriu com satisfação. A voz fria e sombria da entidade se projetou pela boca humana.
- "E erguerá seu templo sobre as ruínas da Igreja dos homens"

sábado, 18 de outubro de 2014

Condenação

O homem do assento 27-A balançava as pernas freneticamente. Estava com as mãos entrelaçadas e girava os polegares com rapidez. Os olhos azul-turquesa apresentavam um brilho fantasmagórico, como se sua alma estivesse distante do corpo. Os cabelos negros e luminosos estavam cuidadosamente penteados para trás. 
- Você deve se acalmar, Ícaro. Não preciso te lembrar do que acontecerá, caso fuja do controle novamente. - disse o homem do assento 27-B ao do 27-A. Os dois não podiam ser mais diferentes. Os cabelos do homem do 27-B eram compridos e dourados e caíam-lhe pelos ombros em cascatas onduladas. Os olhos eram negros e contrastavam com a pele incrivelmente branca. Aliás, se havia uma única coisa semelhante na aparência de ambos era o tom de pele. 
- Eu estou tentando, Cassius. Não é tão fácil, quando se está preso em um Boeing com 500 passageiros. - respondeu Ícaro. 
- Escute aqui. - começou Cassius. - Eu sei exatamente o que está se passando com você. Essa crise de abstinência parece irreversível, mas ela pode sim ser contornada. Basta ter força de vontade. Não custa se esforçar para preservar a própria vida. Ou estou enganado? 
- Você fala como se fosse uma coisa simples. Não sou como o resto de vocês. A experiência que sinto é muito mais intensa do que qualquer outra sensação. Trata-se de uma questão de necessidade fisiológica. É difícil controlar. - Ícaro olhou para o parceiro com olhos trêmulos. Participar de uma conversa lhe custava uma concentração imensa. 
- Não é uma coisa simples. Nada simples. Só quem passa por isso sabe como é. Mas não é como se tivesse alguma opção. Você ainda se lembra da última vez em que deixou o instinto tomar a frente? Estamos sendo vigiados. Posso sentir os olhos deles em todos os lugares que frequentamos. É exatamente por isso que estamos nesse avião e é exatamente por isso que você tem que se controlar. As coisas não terminariam bem aqui. Você sabe disso. - Cassius estava determinado a frear a crise do amigo usando da lógica. Realmente estavam em uma situação delicada. 
- Só um minuto. - Ícaro disse, levantando-se do assunto.
- Ei, onde você pensa que vai? - sussurrou Cassius, segurando o pulso do parceiro.
- Não pira, Cassius. Só vou ao banheiro para me isolar. Acho que não faria bem se eu continuasse aqui. O cheiro é forte demais. Estou sentindo minhas extremidades formigarem. Precisa de mais alguma explicação? - Ícaro estava ficando irritado. 
Cassius não disse coisa alguma. Apenas voltou a ler o exemplar de "A Dança da Morte". Ficou tão absorto na história, que nem ao menos notou o tempo passar. Quando parou para pensar em seu parceiro, notou que fazia quinze minutos que Ícaro havia abandonado seu assento. 
- Ah, merda! - exclamou Cassius. Andou depressa até o fim do corredor e deu três batidas na estreita porta do banheiro.
- Só um minuto. Não estou muito bem. - respondeu a voz abafada do outro lado.
- Sou eu. O que você está fazendo aí dentro? Abre essa porta. 
- Não estou no clima de conversa, agora. Eu já volto pra lá. 
Cassius achou aquilo estranho. Ao invés de voltar para o próprio assento, permaneceu ali, de pé. Por alguns segundos, fixou o olhar na altura do trinco da porta e viu a palavra "ocupado", sobre um fundo vermelho, dar lugar à palavra "livre", sobre um fundo verde. Rapidamente, fez a porta sanfonada correr sobre o trilho e olhou para dentro da cabine. 
Ícaro estava sentado no vaso sanitário. Uma jovem mulher de cerca de 28 anos estava deitada em seu colo, aparentemente inconsciente. Sangue escorria de duas feridas puntiformes no pescoço da mulher e pingava lentamente no chão.
- O que você fez? O que diabos você fez? - Cassius lutava para manter o controle, mas seus sussurros saíram carregados de irritação. 
Ícaro olhou para o cadáver em suas mãos e para o companheiro.
- O que eu faço com ela? - perguntou, com o queixo repleto de sangue seco. 
- Saia imediatamente daí e deixe o corpo.  
Ícaro saiu da minúscula cabine e fechou a porta atras de si. Cassius fez um discreto movimento com a mão direita no ar e o trinco de porta se fechou novamente por dentro. A palavra "ocupado" voltou a aparecer.
- Eu não pude evitar. Eu estava no banheiro e, quando saí, ela estava na porta. O cheiro foi forte demais e eu... - Ícaro foi interrompido pelo homem. 
- Cale essa merda de boca. Você é uma vergonha. Não me admira que estejam querendo dar cabo de você.
Ícaro permaneceu em silêncio e cabisbaixo. Sabia que estava colocando tudo a perder, mas o impulso era forte demais para ser controlado. 
Sentaram-se novamente nas respectivas poltronas, como se nada de anormal tivesse acontecido.
- Você já parou para pensar que ele pode estar nesse avião? - Cassius perguntou, irritado. Seus dedos pressionavam as palmas de suas mãos com força vigorosa. 
- Você está exagerando, Cassius. Teríamos percebido, caso ele estivesse aqui. - respondeu o outro, recostando a cabeça na poltrona. 
O Carcereiro havia deixado claro: mais um deslize de Ícaro e ele seria destruído. Cassius sabia que o vampiro novo era um risco para toda a espécie, pois até aquele momento, todos haviam se esforçado para manter a existência dos sugadores de sangue em segredo. Caso essa informação viesse a público, um conflito de proporções catastróficas com os seres humanos teria início. E provavelmente os vampiros perderiam, ainda que custasse a vida de todo o planeta. Sabiam da obstinação dos seres humanos em comprovar a supremacia da espécie. 
Ícaro não parecia querer compreender o porquê havia de se esconder na sombras. Era um ser vivo como qualquer outro, lutando para sobreviver. Não se alimentava de sangue humano por luxo ou prazer, mas sim por necessidade. Não tomava para si o rótulo de assassino, pois não era isso o que ele era. O guepardo era um assassino por caçar um antílope? As serpentes eram assassinas por se alimentaram de roedores? A espécie humana era assassina por se alimentar de carne animal? Mas tudo o que atacava a espécie humana, física ou moralmente, era considerado como algo danoso, que devia ser combatido. Era a única espécie que detinha o poder do julgamento e isso era extremamente injusto. 
Mas claro que aqueles não eram pensamentos exclusivos. Todos os vampiros haviam passado por esses questionamentos em alguma fase de suas longas vidas. É que a paciência e a resignação eram peças-chave para encarar a imortalidade. A maioria dos vampiros não se enxergavam apenas como predadores que traziam equilíbrio à cadeia alimentar. Muitos eram estudiosos que apreciavam todos os campos da ciência e da arte. Claro que também se compraziam com os inúmeros conflitos medíocres e sem sentido dos humanos. Achavam graça na eterna busca da espécie humana pelo poder individual e pela propriedade privada. Os homens eram tão tolos, que nem ao menos se davam conta de que marchavam rumo à própria extinção. No fim das contas, a conclusão era a mesma: a espécie humana não era tão evoluída quanto os próprios humanos achavam. 
Quanto aos vampiros que pregavam a desordem e caos e que expunham as atividades vampirescas, estes eram destruídos a mando da "Comissão de Contenção de Danos", abreviada como CCD. Esta era uma organização que havia surgido no século 200 a.C., devido à necessidade de se amenizar o conflito direto entre a sociedade egípcia e os vampiros que habitavam as galerias subterrâneas de suas pirâmides. Os vampiros integrantes CCD daquela época se infiltraram entre os guerreiros egípcios durante as batalhas noturnas e ajudaram a destruir os vampiros da desordem. Depois disso, trataram de assassinar todo e qualquer egípcio que tivesse visto ou soubesse dessa pequena guerra. Claro que, até aquele momento, já circulava a lenda de que criaturas como eles andavam pela Terra. Mas no fim das contas, foi a isso que a existência vampiresca se reuniu: uma simples lenda. 
Ao longo dos séculos, a CCD selecionara apenas os vampiros que exibiam auto-controle para povoar o planeta. Eventualmente, um ou outro vampiro fora de controle surgia, mas o Carcereiro tratava de neutralizá-los antes de maiores danos. 
Não é que os vampiros fossem proibidos de se alimentarem de humanos, era só que deviam fazer isso discretamente. De preferência, deveriam escolher como vítimas as pessoas que habitavam as ruas e que eram desprovidas de família. 

Ícaro estava perdido em seus devaneios. Não parecia mais tão ansioso quanto antes e isso era preocupante.

A comissária de bordo, que passava pelas poltronas da fileira 35, parou no meio do corredor. Olhou fixamente para o passageiro do 35 E, que dormia com o pescoço caído para o lado. O homem estava pálido e completamente imóvel. Seu tórax não se movimentava como o de alguém que respirava.  A comissária Lívia sentiu um frio na espinha. 
- Senhor? - chamou em volume baixo. Sem resposta. - Senhor! - aumento um pouco o volume da voz e nada. Lentamente, levou a mão ao ombro do passageiro e deu um leve chacoalhão. - Senhor, o senhor está bem? - O passageiro tombou ainda mais para o lado e a comissária soltou um grunhido agudo e baixo. Depois de alguns segundos, tocou a testa do homem e notou que estava incrivelmente gelada. Puxou o homem para a posição anterior, mas ele tombou para o outro lado. As duas feridas puntiformes e vermelhas no pescoço fizeram com que o coração da comissária disparasse ainda mais. A mulher levou os dedos indicador e médio ao pescoço do homem e não conseguiu sentir o pulso da artéria carótida. Discretamente, Lívia caminhou em direção à cabine, mas foi interrompida pelo passageiro do assento 30-A. 
- Por favor. - disse o passageiro, segurando o pulso da comissária. Ela olhou para os olhos amarelados do homem. - Será que você poderia me servir um refrigerante?
Como se tivesse se esquecido completamente do que ia fazer, a comissária deu meia volta e caminhou até a pequena cozinha. 
O passageiro do 30-A se levantou e, com rapidez sobrenatural, tirou um objeto metálico e brilhante de seu coturno. Em um piscar de olhos, estava no meio dos assentos 27. Quando desferiu o golpe, Ícaro desapareceu e adaga encontrou o encosto do assento, perfurando-o até o outro lado. A mulher do 28-A ficou estupefata com o objeto despontando em sua em sua mini-tv. 
- Largue a adaga ou eu o faço na frente de todo mundo. - a voz de Ícaro veio do fundo do corredor. Segurava uma passageira em sua frente, com o braço enganchando o pescoço da mulher. A passageira se debatia freneticamente, mas quando Ícaro sussurrou algo em seu ouvido, ela se acalmou. 
- Você não pode estar falando sério! - retrucou o homem do 30-A. 
- Eu já sabia que você estava aqui. - respondeu Ícaro. - Senti sua presença desde que pisei nesse avião. 
Cassius observava a cena de pé, em frente ao seu assento. Todos os passageiros faziam o mesmo, exceto aqueles que estavam em sono profundo. 
- Você sabe o que aconteceria se você fizesse isso. Já não acha que fez estrago demais? - o homem do 30-A estava visivelmente irritado. Seu rosto pálido tremia por inteiro. 
- Diga-me, quem nomeou vocês como agentes da natureza? Quem disse que vocês podem controlar quem vive e quem morre de nossa espécie? - Ícaro não se importava com o fato de todos estarem ouvindo. 
- Fazemos isso pela harmonia e para garantir nossa sobrevivência. Você é tão idiota que não consegue perceber isso? Precisou gastar suas três chances para se dar conta? - o homem limpou a adaga com a própria jaqueta. 
- Nemrok. Por favor, não... - Cassius tentou dizer algo, mas foi interrompido pelo homem do 30-A.
- Cale-se, Cassius. Sua cria é uma danação. Uma vergonha que alguém tão poderoso quanto você tenha chegado a essa situação. 
- Por que está tão obstinado em destruir tipos como eu? Sente-se ameaçado? Não gosta da ideia de perder o controle? - Ícaro parecia ter planejado aquele encontro. - Ou você tem inveja do quanto não ligamos para suas leis e morais tolas? Você não consegue ver nada, não é mesmo? O quanto negamos nossos prazeres para que a espécie deles possa viver em paz! Você os vê fazendo a mesma coisa? Você os vê abdicando dos prazeres da carne para construir um mundo coeso? Porque eu vejo o contrário. Eu vejo cada ser humano fazer o que bem entende nessa droga de planeta e vejo nossa espécie se esconder nas sombras, como ratos nocivos à saúde pública. Somos combatidos como células cancerígenas. E por quê? Porque buscamos satisfazer nossos prazeres? Já chega dessa submissão. Estamos na Terra a tanto tempo quanto eles. Os tempos são outros, meu caro. 
Nem Cassius e nem Nemrok tiveram tempo de fazer qualquer coisa. As presas de Ícaro perfuraram o pescoço da mulher e o vampiro sugou o sangue com violência. Quando a vida se esvaiu do corpo da passageira, o vampiro arremessou o cadáver gelado ao chão. 
Nemrok se moveu tão rápido, que Ícaro só percebeu quando o punho atingiu sua face e fê-lo voar para a parede do avião. O metal se rompeu e um grande rombo se abriu na aeronave. Ícaro se segurou na parede intacta do lado de fora do avião, enquanto os passageiros das fileiras 30 e 29 eram sugados pelo ar frio da noite. Uma histeria coletiva tomou conta de todos os passageiros, que se agarravam firmemente às poltronas e gritavam com desespero evidente. 
Nemrok correu até a rombo da aeronave, colocou o braço para fora e desferiu o golpe. Antes que a adaga atingisse o alvo, Cassius lançou-se sobre o grande vampiro e o atirou ao chão. A adaga voou para fora, mas Ícaro a interceptou antes de se arremessar para dentro do avião. 
- Aqui não é o lugar, Nemrok. - Cassius sussurrou, tentando segurar as mãos do Carcereiro no chão. Em um movimento rápido, Nemrok conseguiu se virar sobre Cassius e ganhar vantagem. 
- Você sabe que será o próximo por essa atitude, não sabe? - o Carcereiro perguntou ao iniciar uma onda de socos no rosto de Cassius. - Os anciões tomaram uma péssima decisão ao te deixarem vivo. Eu devia... - Nemrok não teve tempo de continuar. A adaga perfurou suas costas e saiu na altura do peito esquerdo. Por baixo do grande vampiro, Cassius observou a cena com expressão de choque. 
- Não há mais espaço para vampiros como você no mundo. Como vocês - disse Ícaro, empurrando o corpo de Nemrok para baixo e afundando ainda mais a adaga. A prata fez efeito instantâneo, transformando o corpo do vampiro em uma nuvem de cinzas. A lâmina continuou seu trajeto em direção ao chão, perfurando também o peito de Cassius. O vampiro respirou fundo e seu corpo também se desintegrou, da mesma forma que o de Nemrok.
Ícaro levantou-se de imediato. Escutou um ruído agudo vindo de algum aparelho. Um pequeno dispositivo eletrônico no chão exibia uma contagem regressiva em seu pequeno visor.  Ícaro viu o número 1 dando lugar ao número 0.
- Merda. - exclamou o vampiro, antes de pular pela fenda da aeronave. O avião explodiu em uma gigantesca labareda, lançando detritos metálicos de variados tamanhos para todos os lados. As pernas de Ícaro foram engolfadas pelas chamas, enquanto seu corpo caía em queda livre em direção ao oceano pacífico. O vampiro bateu no mar com força, levantando um jorro de água e produzindo uma intensa ondulação. Em questão de poucos segundos, havia nadado até a praia com velocidade sobre-humana. Ao sair da água, Ícaro bateu as mãos na roupa para se livrar das algas e chacoalhou a cabeça para se livrar da água de seus ouvidos.  
- É hora do show. - disse para si mesmo, antes de desaparecer na escuridão da noite Nova Iorquina.