01:30 - Eu nunca estive tão apavorado em toda a minha vida! Eu sei que é maluquice parar para escrever, mas sinto que tenho a obrigação de relatar toda essa situação a alguém.
Interrompi minha escrita
da última vez quando ouvi um grande estrondo no teto da torre. Tentei
movimentar-me lentamente, enquanto ouvia o ruído das telhas se partindo sob o
peso do que quer que estivesse lá em cima. Eu não soube o que fazer. Ao mesmo
tempo em que quis olhar pela janela, também quis correr pelas escadas o mais
rápido possível.
Lentamente, aproximei-me
da janela estilhaçada e coloquei a cabeça para fora. Naquele momento, imaginei
o quão estúpido estava sendo ao arriscar minha vida daquela maneira. Mas havia
algo em mim que gritava para confrontar o desconhecido.
Olhei para cima e tudo o
que vi foi a escuridão completa de um céu sem estrelas. Voltei a cabeça para
dentro e olhei para as escadas. Estava decidido: eu daria o fora do parque imediatamente.
Ser demitido era o menor de meus problemas nessa situação.
Quando pisei no segundo
degrau da escadaria, o teto da torre desabou parcialmente. Eu virei a tempo de
ver um vulto estatelando no chão, por cima dos escombros. Pensei que tudo
estava perdido. Pensei que, finalmente, o predador havia decidido partir para o
ataque. Nem ao menos tive o ímpeto de me movimentar. Eu seria massacrado, se
decidisse fugir dele.
Estranhamente, não houve
qualquer movimento do vulto, que permanecia estirado no chão. Dei um passo em
sua direção e observei atentamente. A silhueta humana foi ficando cada vez mais
evidente e eu compreendi o que estava
vendo: um corpo humano.
Os olhos sem vida de
Sandro fitavam o teto. Quatro sulcos profundos em seu pescoço, de orelha a
orelha, deixavam à mostra os músculos dilacerados e a traqueia rompida. Em seu
tórax, uma grande lesão circular era delimitada por diversos pontos de
perfuração, como se tivesse sido abocanhado por algum animal com muitos dentes.
Um de seus antebraços havia sido decepado, deixando à mostra uma ponta óssea.
Não consegui conter o
vômito, que se projetou violentamente de meu estômago e lavou uma parte do
chão. Limpei o espesso fio de saliva na camiseta e olhei para a direita. Meu
coração acelerou novamente, quando vi o vulto negro parado em cima da copa de
uma árvore, a vinte metros de distância. Posso jurar que vi o sorriso cheio de
dentes serrilhados em seu rosto. Antes que ele pudesse se movimentar, eu desci as
escadas a toda a velocidade. Quando estava no meio da descida, ouvi o baque de
seus pés aterrissando dois lances de degraus acima. Passei a pular cinco
degraus por vez e, a cada aterrissada, sentia os meus joelhos
enfraquecerem.
A respiração da criatura
era alta e pausada, como se todas as suas acrobacias não lhe custassem qualquer
esforço. Ela descia os degraus lenta e ruidosamente. Parecia querer que eu ouvisse cada
movimento seu.
Não arrisquei olhar
para trás e nem para cima. Eu sabia que ela estava me observando e sabia que eu
só não havia sido morto porque ela ainda não queria.
Quando finalmente pisei
no último degrau, a criatura aterrissou suavemente cinco metros à minha frente
sobre duas pernas. Fiquei petrificado com sua imagem.
Tinha dois metros e meio de altura
e seu corpo lembrava vagamente um corpo humano tonificado. A pele escurecida
parecia ter uma textura grosseira, como se constituísse um escudo natural. Os
braços eram excessivamente compridos e terminavam em garras gigantescas e
afiadas. Os pés eram enormes e apresentavam mais articulações do que pés
humanos. Mas o seu rosto era a parte mais assustadora de todo o conjunto. A
enorme boca era desprovida de lábios e deixava expostos os inúmeros dentes
pontiagudos, que lembravam pequenas lâminas e se projetavam de sua maxila. A
criatura não possuía mandíbula, mas sim uma enorme língua repleta de espículas
que se projetava do fundo de sua garganta e descia até o osso esterno,
enrolando-se na ponta. Os pequenos olhos amarelos pareciam abrigar horrores inimagináveis. Esparsos fios negros de cabelo caíam-lhe até os ombros,
a única característica humana que preservava.
Vi a grande nuvem de
vapor de sua respiração espaçada pairar no ar frio da noite. Antes de fazer
qualquer movimento, a criatura projetou a maxila para cima e produziu um
rosnado ensurdecedor. Tampei os ouvidos, enquanto observava a vibração de sua
glote com a passagem do som. Então, a criatura deu um passo em minha direção.
Com um reflexo
inconsciente, engatilhei a escopeta e mirei na altura de sua barriga. O
estampido do tiro ecoou por todo o parque e a criatura afastou com o impacto
dos fragmentos do cartucho. Sua pele permaneceu intacta, como se nada tivesse
acontecido. Em um ato de desespero, joguei a escopeta no chão e saquei a glock
do coldre. Os três tiros em sua carapaça não surtiram qualquer efeito e as balas
ricochetearam para diferentes direções. Uma delas atingiu meu ombro esquerdo de
raspão, fazendo com que eu largasse a pistola imediatamente. A criatura deu
mais um passo em minha direção e eu vi sua língua se movimentando
freneticamente.
Tentei correr para o
lado, mas fui arremessado de bruços ao chão no mesmo momento. Rastejei o quanto pude antes de sentir o peso da criatura sobre minhas costas. A dor
lancinante em meu pescoço foi imediata no momento em que as espículas da língua da monstruosidade perfuraram a carne.
Naquele momento, pensei
que estava tudo terminado. Dentro de alguns instantes, minha cabeça seria
arrancada violentamente e eu encontraria meu fim.
Então, outro estampido
ecoou pelo parque e a língua afiada se desprendeu de meu pescoço. A criatura tombou
para o lado e eu a vi se debater e rosnar, levando as garras ao olho
esquerdo.
- Corra. - ouvi uma voz
ao longe ordenar.
Não pensei duas vezes.
Saí em disparada sem direção definida até encontrar um riacho. Corri paralelo
ao riacho, na esperança de que me levasse para fora daquele lugar. Ao invés
disso, notei que me embrenhava cada vez mais na floresta e meu desespero só
aumentava. Fiquei aliviado quando vi a entrada de uma gruta. Acendi minha lanterna
e entrei em meu refúgio.
Eu não esperava que esse
lugar fosse tão grande. Ainda estou perto da entrada, pois precisei parar para
recompor meu fôlego. Mas vou andar mais para o fundo e esperar até o amanhecer.
Algo me diz que essa criatura não suporta a alvorada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário