quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Patrulha da Noite - Parte 3


01:30 - Eu nunca estive tão apavorado em toda a minha vida! Eu sei que é maluquice parar para escrever, mas sinto que tenho a obrigação de relatar toda essa situação a alguém. 
Interrompi minha escrita da última vez quando ouvi um grande estrondo no teto da torre. Tentei movimentar-me lentamente, enquanto ouvia o ruído das telhas se partindo sob o peso do que quer que estivesse lá em cima. Eu não soube o que fazer. Ao mesmo tempo em que quis olhar pela janela, também quis correr pelas escadas o mais rápido possível. 
Lentamente, aproximei-me da janela estilhaçada e coloquei a cabeça para fora. Naquele momento, imaginei o quão estúpido estava sendo ao arriscar minha vida daquela maneira. Mas havia algo em mim que gritava para confrontar o desconhecido. 
Olhei para cima e tudo o que vi foi a escuridão completa de um céu sem estrelas. Voltei a cabeça para dentro e olhei para as escadas. Estava decidido: eu daria o fora do parque imediatamente. Ser demitido era o menor de meus problemas nessa situação. 
Quando pisei no segundo degrau da escadaria, o teto da torre desabou parcialmente. Eu virei a tempo de ver um vulto estatelando no chão, por cima dos escombros. Pensei que tudo estava perdido. Pensei que, finalmente, o predador havia decidido partir para o ataque. Nem ao menos tive o ímpeto de me movimentar. Eu seria massacrado, se decidisse fugir dele. 
Estranhamente, não houve qualquer movimento do vulto, que permanecia estirado no chão. Dei um passo em sua direção e observei atentamente. A silhueta humana foi ficando cada vez mais evidente e eu compreendi o que estava vendo: um corpo humano. 
Os olhos sem vida de Sandro fitavam o teto. Quatro sulcos profundos em seu pescoço, de orelha a orelha, deixavam à mostra os músculos dilacerados e a traqueia rompida. Em seu tórax, uma grande lesão circular era delimitada por diversos pontos de perfuração, como se tivesse sido abocanhado por algum animal com muitos dentes. Um de seus antebraços havia sido decepado, deixando à mostra uma ponta óssea. 
Não consegui conter o vômito, que se projetou violentamente de meu estômago e lavou uma parte do chão. Limpei o espesso fio de saliva na camiseta e olhei para a direita. Meu coração acelerou novamente, quando vi o vulto negro parado em cima da copa de uma árvore, a vinte metros de distância. Posso jurar que vi o sorriso cheio de dentes serrilhados em seu rosto. Antes que ele pudesse se movimentar, eu desci as escadas a toda a velocidade. Quando estava no meio da descida, ouvi o baque de seus pés aterrissando dois lances de degraus acima. Passei a pular cinco degraus por vez e, a cada aterrissada, sentia os meus joelhos enfraquecerem. 
A respiração da criatura era alta e pausada, como se todas as suas acrobacias não lhe custassem qualquer esforço. Ela descia os degraus lenta e ruidosamente. Parecia querer que eu ouvisse cada movimento seu. 
Não arrisquei olhar para trás e nem para cima. Eu sabia que ela estava me observando e sabia que eu só não havia sido morto porque ela ainda não queria. 
Quando finalmente pisei no último degrau, a criatura aterrissou suavemente cinco metros à minha frente sobre duas pernas. Fiquei petrificado com sua imagem. 
Tinha dois metros e meio de altura e seu corpo lembrava vagamente um corpo humano tonificado. A pele escurecida parecia ter uma textura grosseira, como se constituísse um escudo natural. Os braços eram excessivamente compridos e terminavam em garras gigantescas e afiadas. Os pés eram enormes e apresentavam mais articulações do que pés humanos. Mas o seu rosto era a parte mais assustadora de todo o conjunto. A enorme boca era desprovida de lábios e deixava expostos os inúmeros dentes pontiagudos, que lembravam pequenas lâminas e se projetavam de sua maxila. A criatura não possuía mandíbula, mas sim uma enorme língua repleta de espículas que se projetava do fundo de sua garganta e descia até o osso esterno, enrolando-se na ponta. Os pequenos olhos amarelos pareciam abrigar horrores inimagináveis. Esparsos fios negros de cabelo caíam-lhe até os ombros, a única característica humana que preservava. 
Vi a grande nuvem de vapor de sua respiração espaçada pairar no ar frio da noite. Antes de fazer qualquer movimento, a criatura projetou a maxila para cima e produziu um rosnado ensurdecedor. Tampei os ouvidos, enquanto observava a vibração de sua glote com a passagem do som. Então, a criatura deu um passo em minha direção.
Com um reflexo inconsciente, engatilhei a escopeta e mirei na altura de sua barriga. O estampido do tiro ecoou por todo o parque e a criatura afastou com o impacto dos fragmentos do cartucho. Sua pele permaneceu intacta, como se nada tivesse acontecido. Em um ato de desespero, joguei a escopeta no chão e saquei a glock do coldre. Os três tiros em sua carapaça não surtiram qualquer efeito e as balas ricochetearam para diferentes direções. Uma delas atingiu meu ombro esquerdo de raspão, fazendo com que eu largasse a pistola imediatamente. A criatura deu mais um passo em minha direção e eu vi sua língua se movimentando freneticamente. 
Tentei correr para o lado, mas fui arremessado de bruços ao chão no mesmo momento. Rastejei o quanto pude antes de sentir o peso da criatura sobre minhas costas. A dor lancinante em meu pescoço foi imediata no momento em que as espículas da língua da monstruosidade perfuraram a carne. 
Naquele momento, pensei que estava tudo terminado. Dentro de alguns instantes, minha cabeça seria arrancada violentamente e eu encontraria meu fim. 
Então, outro estampido ecoou pelo parque e a língua afiada se desprendeu de meu pescoço. A criatura tombou para o lado e eu a vi se debater e rosnar, levando as garras ao olho esquerdo. 
- Corra. - ouvi uma voz ao longe ordenar.
Não pensei duas vezes. Saí em disparada sem direção definida até encontrar um riacho. Corri paralelo ao riacho, na esperança de que me levasse para fora daquele lugar. Ao invés disso, notei que me embrenhava cada vez mais na floresta e meu desespero só aumentava. Fiquei aliviado quando vi a entrada de uma gruta. Acendi minha lanterna e entrei em meu refúgio. 
Eu não esperava que esse lugar fosse tão grande. Ainda estou perto da entrada, pois precisei parar para recompor meu fôlego. Mas vou andar mais para o fundo e esperar até o amanhecer. Algo me diz que essa criatura não suporta a alvorada. 


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