terça-feira, 21 de outubro de 2014

Entidade

Havia duas semanas que ele vinha sentindo algo perturbador. Não sabia definir exatamente o que era aquela sensação incômoda que o deixava extremamente agoniado. Evitava falar sobre o assunto com outras pessoas, pelo simples fato de saber que seria mal interpretado. Não era culpa das pessoas, mas sim do vocabulário ineficiente de que a humanidade dispunha.
Durante todas as noites ele vinha experienciando o chamado "sonho lúcido". Nunca, em seus 28 anos de idade, tivera qualquer episódio de catalepsia. Depois da primeira experiência, custava-lhe adormecer, pois os sonhos estavam ficando cada vez mais intensos. Na última semana, havia se arrependido da ideia de morar em um loft, pois seu quarto nada mais era do que o mezanino. Nos sonhos lúcidos, a figura sombria de suas alucinações aparecia no parapeito do mezanino, como se estivesse flutuando, e avançava lentamente em sua direção, pressionando-o contra a cama, enquanto ele tentava desesperadamente abrir os olhos e alcançar o interruptor. Era simplesmente aterrorizador ter consciência de que estava sonhando e não poder fazer nada a respeito disso. 
Quando os sonhos começaram, ele pensou que pudessem ter relação com seu grande fascínio pelo ocultismo. Ultimamente, vinha pesquisando incansavelmente sobre o tema. Não se restringia a apenas uma vertente religiosa, mas abraçava a filosofia de todas. A única ideia que não lhe servia para nada era o maniqueísmo. Não acreditava na divisão simplória do mundo entre bem e mal, pois sabia que o comportamento e a mentalidade humanos eram complexos demais para serem resumidos a dois caminhos. Por isso, ignorava completamente a existência de forças ou espíritos malignos. Mas talvez o mundo oculto quisesse lhe mostrar alguma coisa. Talvez fosse uma forma de lhe dizerem "mantenha distância".

Foi no dia 31 de outubro que o horrível aconteceu. Ele estava deitado em sua cama king size e assistia à uma maratona dos filmes "Halloween", como sempre fazia nessa data em todos os anos. Não sabia explicar o motivo pelo qual a data o atraía tanto, mas captava algo diferente na ocasião e sentia-se na obrigação de celebrar.
Eram 23:30 e assistia a Halloween V, quando o sono o abraçou de vez. Diferente de todas as outras noites, o sonho lúcido não veio. Ao invés disso, foi arrancado violentamente do sono por um sussurro bem ao pé de seu ouvido. O ar quente veio junto com o som, fazendo com que um calafrio tomasse conta de todo o seu corpo imediatamente. Virou-se rapidamente de barriga para cima e sentou-se, fitando o vazio. A TV exibia a tela do menu inicial do DVD Player. Olhou para os lados e não viu coisa alguma.
- Que besteira! - disse para si mesmo, procurando os controles remotos dos equipamentos. Ele jurava que os tinha deixado ao lado do travesseiro como sempre fizera. Estava sonolento demais para ficar procurando pelo quarto. Então, levantou-se da cama e apertou o botão "power" do DVD e em seguida o da TV. A única coisa que continuava a iluminar fracamente o quarto era o abajur de lava, que ficava em cima do criado mudo. Mas a pouca luminosidade foi o suficiente para permitir que ele visse o reflexo da figura humana na televisão desligada. O ritmo cardíaco acelerou e as extremidades de seu corpo ficaram geladas. O estômago parecia se contorcer, enquanto o resto do corpo permanecia estático.  Levou um tempo até que conseguisse juntar força para se virar para trás e notar que não havia ninguém no quarto. Estava sozinho e, achar que estava sendo assombrado era pura estupidez. 
"Minha mente está tentando me pregar uma peça". Pensou, embora não acreditasse totalmente naquilo. Era quase como se sentisse uma presença imaterial ali perto.
Ignorando completamente a sensação, deitou-se novamente na cama e fitou o teto escuro. À medida que seu corpo se acalmava, os olhos iam ficando cada vez mais pesados, até finalmente se fecharem. Estava prestes a pegar no sono, quando ouviu o barulho de algo se arrastando embaixo da cama. Abriu os olhos imediatamente e ouviu com atenção. Não havia qualquer ruído. Será que estava sofrendo de alucinações por conta do distúrbio do sono?
Estendeu a mão até o criado mudo, abriu a primeira gaveta e tateou em busca da faca de caça que guardava para uma eventual emergência. Depois de fechar as mãos firmemente sobre o punho da faca, esgueirou o corpo pela beirada da cama e tentou encontrar o que havia produzido o barulho. Nada.
Voltou a se deitar de barriga para cima e segurou a faca com as duas mãos junto à barriga. Não tinha fé em qualquer divindade, mas naquele momento rezou com todas as forças.
- Não há escapatória. - sussurrou uma voz em seu ouvido, fazendo com que pulasse da cama e caísse de costas no chão. Colocou-se de pé no mesmo segundo e empunhou a faca na direção da cama.
- O que você quer? - gritou, afastando-se em direção à escada.
- Você saberá. - a voz fria veio do seu lado direito. Ele olhou naquela direção e não viu coisa alguma. Quando voltou a olhar para a frente, o rosto negro e putrefato do vulto se materializou a centímetros do seu. O homem se assustou, perdendo equilíbrio e rolando escada abaixo, até cair estatelado no chão da sala. Ainda segurava a faca na mão. Rapidamente, colocou-se de pé e disparou para a porta de entrada. As chaves. Tinha esquecido as chaves no bolso da jaqueta, pendurada no cabideiro de seu quarto. Merda!
Correu a toda a velocidade de volta para o quarto, tropeçando duas vezes na escada. Sentia a presença da entidade ficando cada vez mais intensa e sufocante, como se estivesse fechando as mãos sobre sua alma. Quando finalmente chegou ao cabideiro, enfiou a mão pelos bolsos da jaqueta e, no momento em que fechou as mãos sobre o chaveiro, viu os fios de cabelo preto caindo pelos ombros da jaqueta e os olhos vermelhos reluzindo na escuridão. Tentou tirar a mão de dentro do bolso, mas não conseguiu. Alguma força sobre-humana a mantinha lá dentro.
- Me larga, porra. - Gritou, golpeando inutilmente a jaqueta com a faca. Então, sentiu dedos humanos se fecharem sobre o punho da mão que segurava a faca. Sem que pudesse fazer qualquer coisa para se livrar daquilo, seu braço foi levantado para cima e baixado violentamente sobre sua própria barriga. A faca de caça penetrou em sua pele, rompendo a musculatura abdominal e acertando algum órgão interno. A dor irradiou daquela região e ele gritou o mais alto que pôde. Por que diabos escolhera um lugar tão afastado para morar?
A força sobre-humana em suas duas mãos aliviou e ele conseguiu se afastar do cabideiro, ainda segurando o punho da faca. Sabia que não deveria puxar a lâmina antes de chegar a um hospital. No cabideiro, restava apenas a jaqueta de couro, intacta.
Antes que pudesse tomar qualquer atitude, a mão invisível se fechou novamente sobre seu punho e puxou o braço com força, retirando a faca de sua barriga e fazendo com que uma cascata de sangue jorrasse do ferimento. Levou a outra mão ao local, tentando estancar o sangue que escorria pelos dedos. Desobedecendo sua própria vontade, a mão segurando a faca desceu novamente, enterrando a lâmina no mesmo local. Dessa vez, ele não gritou, pois faltou-lhe ar para produzir qualquer ruído. O golpe fez com que andasse para trás. A mão levantou e golpeou o ferimento mais três vezes, fazendo com que se afastasse cada vez mais e se chocasse contra o parapeito do mezanino. Suas costas se curvaram e ele perdeu o equilíbrio, caindo de costas em cima da mesa de vidro da sala, que se estilhaçou. A faca voou para o lado com o impacto e ele ficou caído de costas. O sangue escorria cada vez mais do ferimento e, rapidamente, seu corpo adquiria uma cor pálida. Com muito custo, virou-se de barriga para baixo e começou a engatinhar. Então, a força invisível fez com que parasse novamente. A mesma mão que segurava a faca foi levada até o ferimento, ficando encharcada de sangue. A força fechou os quatro dedos da mão, deixando somente o indicador estendido. Movimentou a mão, de forma que o indicador rabiscasse um desenho no porcelanato. O grande pentagrama invertido, feito com sangue, brilhou intensamente, iluminando todo o loft. O homem, exaurido, sentiu sua consciência se apagar. Depois de alguns segundos, seu corpo sem vida desabou sobre o pentagrama. A poça de sangue se espalhou para os lados e um silêncio sepulcral tomou conta da noite.
O pentagrama brilhou ainda mais intensamente, fazendo com que a luz penetrasse completamente no cadáver. Então, como se tivesse sido reanimado, o corpo começou a se contrair violentamente. Os tremores se propagaram por todo o corpo e a ferida do abdome cicatrizou. Depois de alguns minutos, o corpo finalmente parou de se mexer e os olhos se abriram. A íris esquerda estava completamente esbranquiçada, enquanto a direita mantinha a tonalidade esverdeada natural. Vagarosamente, o homem se colocou de joelhos e se levantou. Observou as próprias mãos e sorriu com satisfação. A voz fria e sombria da entidade se projetou pela boca humana.
- "E erguerá seu templo sobre as ruínas da Igreja dos homens"

sábado, 18 de outubro de 2014

Condenação

O homem do assento 27-A balançava as pernas freneticamente. Estava com as mãos entrelaçadas e girava os polegares com rapidez. Os olhos azul-turquesa apresentavam um brilho fantasmagórico, como se sua alma estivesse distante do corpo. Os cabelos negros e luminosos estavam cuidadosamente penteados para trás. 
- Você deve se acalmar, Ícaro. Não preciso te lembrar do que acontecerá, caso fuja do controle novamente. - disse o homem do assento 27-B ao do 27-A. Os dois não podiam ser mais diferentes. Os cabelos do homem do 27-B eram compridos e dourados e caíam-lhe pelos ombros em cascatas onduladas. Os olhos eram negros e contrastavam com a pele incrivelmente branca. Aliás, se havia uma única coisa semelhante na aparência de ambos era o tom de pele. 
- Eu estou tentando, Cassius. Não é tão fácil, quando se está preso em um Boeing com 500 passageiros. - respondeu Ícaro. 
- Escute aqui. - começou Cassius. - Eu sei exatamente o que está se passando com você. Essa crise de abstinência parece irreversível, mas ela pode sim ser contornada. Basta ter força de vontade. Não custa se esforçar para preservar a própria vida. Ou estou enganado? 
- Você fala como se fosse uma coisa simples. Não sou como o resto de vocês. A experiência que sinto é muito mais intensa do que qualquer outra sensação. Trata-se de uma questão de necessidade fisiológica. É difícil controlar. - Ícaro olhou para o parceiro com olhos trêmulos. Participar de uma conversa lhe custava uma concentração imensa. 
- Não é uma coisa simples. Nada simples. Só quem passa por isso sabe como é. Mas não é como se tivesse alguma opção. Você ainda se lembra da última vez em que deixou o instinto tomar a frente? Estamos sendo vigiados. Posso sentir os olhos deles em todos os lugares que frequentamos. É exatamente por isso que estamos nesse avião e é exatamente por isso que você tem que se controlar. As coisas não terminariam bem aqui. Você sabe disso. - Cassius estava determinado a frear a crise do amigo usando da lógica. Realmente estavam em uma situação delicada. 
- Só um minuto. - Ícaro disse, levantando-se do assunto.
- Ei, onde você pensa que vai? - sussurrou Cassius, segurando o pulso do parceiro.
- Não pira, Cassius. Só vou ao banheiro para me isolar. Acho que não faria bem se eu continuasse aqui. O cheiro é forte demais. Estou sentindo minhas extremidades formigarem. Precisa de mais alguma explicação? - Ícaro estava ficando irritado. 
Cassius não disse coisa alguma. Apenas voltou a ler o exemplar de "A Dança da Morte". Ficou tão absorto na história, que nem ao menos notou o tempo passar. Quando parou para pensar em seu parceiro, notou que fazia quinze minutos que Ícaro havia abandonado seu assento. 
- Ah, merda! - exclamou Cassius. Andou depressa até o fim do corredor e deu três batidas na estreita porta do banheiro.
- Só um minuto. Não estou muito bem. - respondeu a voz abafada do outro lado.
- Sou eu. O que você está fazendo aí dentro? Abre essa porta. 
- Não estou no clima de conversa, agora. Eu já volto pra lá. 
Cassius achou aquilo estranho. Ao invés de voltar para o próprio assento, permaneceu ali, de pé. Por alguns segundos, fixou o olhar na altura do trinco da porta e viu a palavra "ocupado", sobre um fundo vermelho, dar lugar à palavra "livre", sobre um fundo verde. Rapidamente, fez a porta sanfonada correr sobre o trilho e olhou para dentro da cabine. 
Ícaro estava sentado no vaso sanitário. Uma jovem mulher de cerca de 28 anos estava deitada em seu colo, aparentemente inconsciente. Sangue escorria de duas feridas puntiformes no pescoço da mulher e pingava lentamente no chão.
- O que você fez? O que diabos você fez? - Cassius lutava para manter o controle, mas seus sussurros saíram carregados de irritação. 
Ícaro olhou para o cadáver em suas mãos e para o companheiro.
- O que eu faço com ela? - perguntou, com o queixo repleto de sangue seco. 
- Saia imediatamente daí e deixe o corpo.  
Ícaro saiu da minúscula cabine e fechou a porta atras de si. Cassius fez um discreto movimento com a mão direita no ar e o trinco de porta se fechou novamente por dentro. A palavra "ocupado" voltou a aparecer.
- Eu não pude evitar. Eu estava no banheiro e, quando saí, ela estava na porta. O cheiro foi forte demais e eu... - Ícaro foi interrompido pelo homem. 
- Cale essa merda de boca. Você é uma vergonha. Não me admira que estejam querendo dar cabo de você.
Ícaro permaneceu em silêncio e cabisbaixo. Sabia que estava colocando tudo a perder, mas o impulso era forte demais para ser controlado. 
Sentaram-se novamente nas respectivas poltronas, como se nada de anormal tivesse acontecido.
- Você já parou para pensar que ele pode estar nesse avião? - Cassius perguntou, irritado. Seus dedos pressionavam as palmas de suas mãos com força vigorosa. 
- Você está exagerando, Cassius. Teríamos percebido, caso ele estivesse aqui. - respondeu o outro, recostando a cabeça na poltrona. 
O Carcereiro havia deixado claro: mais um deslize de Ícaro e ele seria destruído. Cassius sabia que o vampiro novo era um risco para toda a espécie, pois até aquele momento, todos haviam se esforçado para manter a existência dos sugadores de sangue em segredo. Caso essa informação viesse a público, um conflito de proporções catastróficas com os seres humanos teria início. E provavelmente os vampiros perderiam, ainda que custasse a vida de todo o planeta. Sabiam da obstinação dos seres humanos em comprovar a supremacia da espécie. 
Ícaro não parecia querer compreender o porquê havia de se esconder na sombras. Era um ser vivo como qualquer outro, lutando para sobreviver. Não se alimentava de sangue humano por luxo ou prazer, mas sim por necessidade. Não tomava para si o rótulo de assassino, pois não era isso o que ele era. O guepardo era um assassino por caçar um antílope? As serpentes eram assassinas por se alimentaram de roedores? A espécie humana era assassina por se alimentar de carne animal? Mas tudo o que atacava a espécie humana, física ou moralmente, era considerado como algo danoso, que devia ser combatido. Era a única espécie que detinha o poder do julgamento e isso era extremamente injusto. 
Mas claro que aqueles não eram pensamentos exclusivos. Todos os vampiros haviam passado por esses questionamentos em alguma fase de suas longas vidas. É que a paciência e a resignação eram peças-chave para encarar a imortalidade. A maioria dos vampiros não se enxergavam apenas como predadores que traziam equilíbrio à cadeia alimentar. Muitos eram estudiosos que apreciavam todos os campos da ciência e da arte. Claro que também se compraziam com os inúmeros conflitos medíocres e sem sentido dos humanos. Achavam graça na eterna busca da espécie humana pelo poder individual e pela propriedade privada. Os homens eram tão tolos, que nem ao menos se davam conta de que marchavam rumo à própria extinção. No fim das contas, a conclusão era a mesma: a espécie humana não era tão evoluída quanto os próprios humanos achavam. 
Quanto aos vampiros que pregavam a desordem e caos e que expunham as atividades vampirescas, estes eram destruídos a mando da "Comissão de Contenção de Danos", abreviada como CCD. Esta era uma organização que havia surgido no século 200 a.C., devido à necessidade de se amenizar o conflito direto entre a sociedade egípcia e os vampiros que habitavam as galerias subterrâneas de suas pirâmides. Os vampiros integrantes CCD daquela época se infiltraram entre os guerreiros egípcios durante as batalhas noturnas e ajudaram a destruir os vampiros da desordem. Depois disso, trataram de assassinar todo e qualquer egípcio que tivesse visto ou soubesse dessa pequena guerra. Claro que, até aquele momento, já circulava a lenda de que criaturas como eles andavam pela Terra. Mas no fim das contas, foi a isso que a existência vampiresca se reuniu: uma simples lenda. 
Ao longo dos séculos, a CCD selecionara apenas os vampiros que exibiam auto-controle para povoar o planeta. Eventualmente, um ou outro vampiro fora de controle surgia, mas o Carcereiro tratava de neutralizá-los antes de maiores danos. 
Não é que os vampiros fossem proibidos de se alimentarem de humanos, era só que deviam fazer isso discretamente. De preferência, deveriam escolher como vítimas as pessoas que habitavam as ruas e que eram desprovidas de família. 

Ícaro estava perdido em seus devaneios. Não parecia mais tão ansioso quanto antes e isso era preocupante.

A comissária de bordo, que passava pelas poltronas da fileira 35, parou no meio do corredor. Olhou fixamente para o passageiro do 35 E, que dormia com o pescoço caído para o lado. O homem estava pálido e completamente imóvel. Seu tórax não se movimentava como o de alguém que respirava.  A comissária Lívia sentiu um frio na espinha. 
- Senhor? - chamou em volume baixo. Sem resposta. - Senhor! - aumento um pouco o volume da voz e nada. Lentamente, levou a mão ao ombro do passageiro e deu um leve chacoalhão. - Senhor, o senhor está bem? - O passageiro tombou ainda mais para o lado e a comissária soltou um grunhido agudo e baixo. Depois de alguns segundos, tocou a testa do homem e notou que estava incrivelmente gelada. Puxou o homem para a posição anterior, mas ele tombou para o outro lado. As duas feridas puntiformes e vermelhas no pescoço fizeram com que o coração da comissária disparasse ainda mais. A mulher levou os dedos indicador e médio ao pescoço do homem e não conseguiu sentir o pulso da artéria carótida. Discretamente, Lívia caminhou em direção à cabine, mas foi interrompida pelo passageiro do assento 30-A. 
- Por favor. - disse o passageiro, segurando o pulso da comissária. Ela olhou para os olhos amarelados do homem. - Será que você poderia me servir um refrigerante?
Como se tivesse se esquecido completamente do que ia fazer, a comissária deu meia volta e caminhou até a pequena cozinha. 
O passageiro do 30-A se levantou e, com rapidez sobrenatural, tirou um objeto metálico e brilhante de seu coturno. Em um piscar de olhos, estava no meio dos assentos 27. Quando desferiu o golpe, Ícaro desapareceu e adaga encontrou o encosto do assento, perfurando-o até o outro lado. A mulher do 28-A ficou estupefata com o objeto despontando em sua em sua mini-tv. 
- Largue a adaga ou eu o faço na frente de todo mundo. - a voz de Ícaro veio do fundo do corredor. Segurava uma passageira em sua frente, com o braço enganchando o pescoço da mulher. A passageira se debatia freneticamente, mas quando Ícaro sussurrou algo em seu ouvido, ela se acalmou. 
- Você não pode estar falando sério! - retrucou o homem do 30-A. 
- Eu já sabia que você estava aqui. - respondeu Ícaro. - Senti sua presença desde que pisei nesse avião. 
Cassius observava a cena de pé, em frente ao seu assento. Todos os passageiros faziam o mesmo, exceto aqueles que estavam em sono profundo. 
- Você sabe o que aconteceria se você fizesse isso. Já não acha que fez estrago demais? - o homem do 30-A estava visivelmente irritado. Seu rosto pálido tremia por inteiro. 
- Diga-me, quem nomeou vocês como agentes da natureza? Quem disse que vocês podem controlar quem vive e quem morre de nossa espécie? - Ícaro não se importava com o fato de todos estarem ouvindo. 
- Fazemos isso pela harmonia e para garantir nossa sobrevivência. Você é tão idiota que não consegue perceber isso? Precisou gastar suas três chances para se dar conta? - o homem limpou a adaga com a própria jaqueta. 
- Nemrok. Por favor, não... - Cassius tentou dizer algo, mas foi interrompido pelo homem do 30-A.
- Cale-se, Cassius. Sua cria é uma danação. Uma vergonha que alguém tão poderoso quanto você tenha chegado a essa situação. 
- Por que está tão obstinado em destruir tipos como eu? Sente-se ameaçado? Não gosta da ideia de perder o controle? - Ícaro parecia ter planejado aquele encontro. - Ou você tem inveja do quanto não ligamos para suas leis e morais tolas? Você não consegue ver nada, não é mesmo? O quanto negamos nossos prazeres para que a espécie deles possa viver em paz! Você os vê fazendo a mesma coisa? Você os vê abdicando dos prazeres da carne para construir um mundo coeso? Porque eu vejo o contrário. Eu vejo cada ser humano fazer o que bem entende nessa droga de planeta e vejo nossa espécie se esconder nas sombras, como ratos nocivos à saúde pública. Somos combatidos como células cancerígenas. E por quê? Porque buscamos satisfazer nossos prazeres? Já chega dessa submissão. Estamos na Terra a tanto tempo quanto eles. Os tempos são outros, meu caro. 
Nem Cassius e nem Nemrok tiveram tempo de fazer qualquer coisa. As presas de Ícaro perfuraram o pescoço da mulher e o vampiro sugou o sangue com violência. Quando a vida se esvaiu do corpo da passageira, o vampiro arremessou o cadáver gelado ao chão. 
Nemrok se moveu tão rápido, que Ícaro só percebeu quando o punho atingiu sua face e fê-lo voar para a parede do avião. O metal se rompeu e um grande rombo se abriu na aeronave. Ícaro se segurou na parede intacta do lado de fora do avião, enquanto os passageiros das fileiras 30 e 29 eram sugados pelo ar frio da noite. Uma histeria coletiva tomou conta de todos os passageiros, que se agarravam firmemente às poltronas e gritavam com desespero evidente. 
Nemrok correu até a rombo da aeronave, colocou o braço para fora e desferiu o golpe. Antes que a adaga atingisse o alvo, Cassius lançou-se sobre o grande vampiro e o atirou ao chão. A adaga voou para fora, mas Ícaro a interceptou antes de se arremessar para dentro do avião. 
- Aqui não é o lugar, Nemrok. - Cassius sussurrou, tentando segurar as mãos do Carcereiro no chão. Em um movimento rápido, Nemrok conseguiu se virar sobre Cassius e ganhar vantagem. 
- Você sabe que será o próximo por essa atitude, não sabe? - o Carcereiro perguntou ao iniciar uma onda de socos no rosto de Cassius. - Os anciões tomaram uma péssima decisão ao te deixarem vivo. Eu devia... - Nemrok não teve tempo de continuar. A adaga perfurou suas costas e saiu na altura do peito esquerdo. Por baixo do grande vampiro, Cassius observou a cena com expressão de choque. 
- Não há mais espaço para vampiros como você no mundo. Como vocês - disse Ícaro, empurrando o corpo de Nemrok para baixo e afundando ainda mais a adaga. A prata fez efeito instantâneo, transformando o corpo do vampiro em uma nuvem de cinzas. A lâmina continuou seu trajeto em direção ao chão, perfurando também o peito de Cassius. O vampiro respirou fundo e seu corpo também se desintegrou, da mesma forma que o de Nemrok.
Ícaro levantou-se de imediato. Escutou um ruído agudo vindo de algum aparelho. Um pequeno dispositivo eletrônico no chão exibia uma contagem regressiva em seu pequeno visor.  Ícaro viu o número 1 dando lugar ao número 0.
- Merda. - exclamou o vampiro, antes de pular pela fenda da aeronave. O avião explodiu em uma gigantesca labareda, lançando detritos metálicos de variados tamanhos para todos os lados. As pernas de Ícaro foram engolfadas pelas chamas, enquanto seu corpo caía em queda livre em direção ao oceano pacífico. O vampiro bateu no mar com força, levantando um jorro de água e produzindo uma intensa ondulação. Em questão de poucos segundos, havia nadado até a praia com velocidade sobre-humana. Ao sair da água, Ícaro bateu as mãos na roupa para se livrar das algas e chacoalhou a cabeça para se livrar da água de seus ouvidos.  
- É hora do show. - disse para si mesmo, antes de desaparecer na escuridão da noite Nova Iorquina.  

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Abissal - Parte 5

O arpão perfurou a testa do animal, que rodopiou e caiu estatelado no chão. O corpo foi tomado por tremores involuntários e o sangue vermelho escuro escorreu pelo ferimento. As pupilas do animal se dilataram e os movimentos corporais cessaram. O impacto no cérebro fora fatal. 
- O que você fez? - Marcos largou a pistola de dardos e correu até o corpo do animal. - Não, não, não e não. - Gritou, enquanto fazia uma massagem cardíaca completamente inútil. 
- O que eu fiz? Salvei a gente dessa coisa bizarra. Você preza mais pela vida dele do que pela sua? - Lissandra estava sendo tomada por uma irritação crescente. Se ainda tivesse um arpão, seria capaz de atirar na testa do homem. 
- Você não nos salvou. Você nos condenou, sua idiota. Não faz ideia do que acabou de causar. 
Como se estivesse aguardando o momento oportuno, o corpo do animal se movimentou freneticamente e soltou um guincho tão agudo, que Lissandra achou que seus ouvidos fossem explodir. O grito durou alguns segundos e cessou. O animal permanecia morto. 
- Que porra foi essa? - Lissandra gritou. 
- Foi um chamado. - Marcos respondeu. - Pegue todos os sinalizadores que puder. Tem uma mochila dentro desse armário de alumínio ao seu lado. Use ela. 
Por um momento, a mulher se esqueceu do ferimento em sua perna, pegou a mochila e a encheu com os sinalizadores, que ficavam dentro dos armários. 
- Peguei. O que você está fazendo? - Lissandra foi até Marcos, que acabava de verificar o pente de uma pistola PT 58. Colocou o pente de volta, puxou o cão para trás e entregou a arma para a mulher. 
- Mire e atire. Cuidado! Está destravada. - ele disse, virando-se para um dos armários e pegando uma submetralhadora 40 S&W. 
- Eu preciso entender uma coisa. Quando eles morrem, fazem esse barulho ensurdecedor para chamar os outros? - Lissandra perguntou.
- Quando são assassinados. - o homem respondeu. - Olha só, não tenho tempo para explicar mais nada. Vamos sair daqui. Tem um compartimento de carga extra abaixo dos contêineres. Se conseguirmos chegar lá, podemos aguardar até de manhã. 
Marcos correu até a porta da cabine e a puxou com força. O vento manteve a porta imóvel, colada à parede. Lissandra seguiu-o para se encontrar novamente com a tempestade. 
- Me dá um sinalizador e acende um. Rápido. - o homem pediu e Lissandra obedeceu. 
Desceram os degraus da cabine e acenderam os sinalizadores. 
- Por aqui. - O homem levantou o sinalizador e começou a correr. Lissandra levantou o braço e o seguiu. O vento havia diminuído um pouco de intensidade, assim como as ondas estavam menores. A chuva caía com menor velocidade e o impacto das gotas sobre o corpo passara a ser tolerável. 
Não haviam percorrido metade do caminho, quando o pé de Lissandra encontrou uma elevação metálica. Seu corpo tombou para frente, fazendo com que estatelasse no chão. O sinalizador voou de sua mão. 
- Merda! Marcos. - chamou, colocando-se de pé.
O ruído do vento abafou o som de sua voz e o rugir em uníssono das criaturas, que pulavam da água para o cargueiro. Lissandra contou dez cercando-a de todos os lados. 
- MARCOS. - gritou com toda a força que podia, ao mesmo tempo em que tentava alcançar o zíper da mochila para puxar mais um sinalizador. 
Uma das criaturas marinhas saltou, mas foi atingida pelas balas da S&W no ar, desviando de seu percurso. Marcos chegou até a mulher e as criaturas se afastaram da fonte luminosa.  
- Pegue mais dois. - ordenou a ela. 
Lissandra obedeceu, colocando a mochila à sua frente e puxando mais dois sinalizadores. Entregou um deles aceso para Marcos e segurou o outro à sua frente. Sentiu-se aterrorizada com o cerco que se fechava em torno deles. Mais 15 criaturas se juntaram ao bando de uma só vez. O ruído de suas respirações era amedrontador. 
Uma das criaturas deu um passo na direção dos dois. Assustada, Lissandra mirou a PT 58 e disparou. A bala atingiu o ombro direito da criatura, que berrou furiosamente. 
- Continua andando, porra. - ela gritou. 
Marcos deixou a S&W pendurada em suas costas e abriu caminho à frente, segurando dois sinalizadores. 
Lissandra foi atrás do parceiro, segurando o sinalizador com uma das mãos e atirando com a outra. Algumas balas cortavam o ar vazio e acabavam se enterrando em contêineres ou afundando na água, dezenas de metros à frente. Outras atingiam braços, pernas e barrigas, derrubando algumas criaturas e atrasando o avanço do bando. 
As 19 balas do pente da pistola acabaram rapidamente. Lissandra deu um toque no ombro de Marcos. 
- Acabaram minhas balas. 
- Chegamos. - respondeu o Homem, abaixando-se e abrindo a porta metálica no chão do navio. - Pula primeiro. - disse a ela. 
Lissandra deixou o sinalizador no chão e pulou. Sentiu a perna fisgar e apoiou-se na parede. Então, ouviu os estampidos da submetralhadora e sentiu o coração acelerar. 
- Marcos. - gritou. - Você está bem?
Os estampidos cessaram e Marcos pulou para o compartimento segurando a tampa metálica por dentro, que se fechou acima dele. 
- Agora preciso girar isso aqui. - ele disse, girando a válvula da porta para a direita. 
- E agora? Esperamos aqui? Eu não tenho certeza de que estamos completamente seguros. - Lissandra pareceu desconfiada.
- Eu também não. Mas é tudo o que temos, por enquanto. 
- Por que eles sinalizam, quando são assassinados? Algo relacionado com vingança? - perguntou a mulher. 
- Não. Para falar a verdade, sinalizam para que os vivos venham buscar seus gametas, antes que o corpo entre em decomposição. - Marcos respondeu com naturalidade. - São uma espécie dedicada à sobrevivência. Se o corpo sinaliza, significa que o indivíduo não morreu de alguma causa natural, como por exemplo, uma doença genética, mas sim que a vida foi interrompida bruscamente por um fator externo. A chance dos gametas serem mais saudáveis é muito maior. 
- Mas por que pegar os gametas? Não é como se eles pudessem fazer inseminação artificial debaixo d'água. - Lissandra questionou. 
- A reprodução deles é diferente. - Marcos respondeu. - São ovíparos, mas acredito que a fecundação ocorra fora do corpo. Não sei como funciona. Nunca vi pessoalmente. 
Ela não perguntou mais nada. Apenas se deixou ser invadida por certa comoção. Era admirável a luta das espécies para garantir a sobrevivência. O valor da vida estava embutido DNA de cada criatura viva do planeta Terra. Por esse sentimento é que lutava para continuar viva. Duas espécies batalhavam pela sobrevivência e havia algo dramaticamente belo naquela situação. 

Quando os sinalizadores se apagaram, as criaturas se concentraram em volta da porta do compartimento. Batiam com as mãos e com os pés, como se quisessem abrir um buraco no navio. A cada pancada que davam no lado externo da porta, o metal afundava um pouco do lado de dentro. 
Depois de dez minutos, a porta já começava a se soltar dos trincos. 
- Eu posso ser pessimista, mas acho que essa porta não vai durar muito tempo. - Lissandra pontuou. - O que vamos fazer? - perguntou, desesperada. 
- Espere um minuto. Está ouvindo? - Marcos respondeu, apontando para cima. Um sorriso se fez em seu rosto. 
- O que foi? Ouvindo o que? 
- Shhhh
E lá estava, o barulho quase abafado de um helicóptero sobrevoando os arredores. 
- Prepare os sinalizadores. - ele disse, colocando a mão em um dos bolsos da jaqueta e retirando a granada de dentro. 
- Ah meu Deus. - Lissandra colocou uma das mãos na testa.
- Tenha fé. Podemos ser salvos se fizermos isso. - Marcos caminhou até a escotilha e girou a válvula. A pressão da porta aliviou e ele a empurrou para cima, segurando um dos sinalizadores à sua frente. Os rostos curiosos das criaturas se afastaram da luminosidade. - Agora. - Marcos jogou o sinalizador para fora, tirou o pino da granada e a arremessou, fechando a escotilha logo em seguida. A explosão arremessou a porta para longe e fez com que a estrutura toda do navio tremesse. As criaturas foram lançadas para todos os lados e partes de seus corpos foram decepadas. Aquela era a hora de sair.
Marcos pegou o sinalizador e acenou para cima. 
- EI. ESTAMOS AQUI. - gritou o mais alto que podia. 
Lissandra logo saiu do esconderijo e acendeu um sinalizador em cada mão. Depois de alguns segundos, finalmente foram avistados. O helicóptero começou a voar mais baixo e a escada foi arremessada.
Os dois correram a toda velocidade  naquela direção. 
- Suba primeiro. - Marcos disse ao chegarem. Lissandra largou os sinalizadores no chão, pulou na escada e subiu, sem olhar para baixo. O helicóptero tentava manter-se estático, mas o vento ainda era o suficiente para jogá-lo de um lado para o outro. A mulher lutava para não cair. 
Quando ela estava na metade da escada, Marcos pulou para alcançar o último degrau. Olhou para o lado direito e avistou uma das criaturas penduradas no mastro de metal, a dez metros de distância. Tentou subir o mais rápido possível, mas a criatura se lançou sobre ele, derrubando-o de volta no navio.
- MARCOS. - gritou, Lissandra, enquanto o helicóptero se afastava do navio. As criaturas circundaram os sinalizadores e atacaram o homem, que gritava inutilmente por socorro. Dentro de alguns minutos, somente a ossada de seu corpo permanecia como evidência de que ali houvera uma pessoa. 
- Eu sinto muito. - disse o piloto. - Você está a salvo. Tudo vai ficar bem agora. 
O copiloto virou para trás e fez um movimento rápido com a mão. Lissandra sentiu a picada em sua coxa e puxou a perna no mesmo momento. 
- Você está louco? - perguntou, indignada. O copiloto nada respondeu. Apenas virou-se para frente como se nada tivesse acontecido. Em alguns minutos, Lissandra sentiu as forças se esvaindo de seu corpo e sua consciência se apagou por completo. 

Não sabia o que estava acontecendo. Sabia que estava nua, deitada em alguma coisa gelada, mas estava impossibilidade de se movimentar. Nem ao menos conseguia abrir os olhos. Ouviu os bipes familiares de monitores cardíacos e sentiu pavor. Sua mente não conseguia elaborar raciocínios claros, porque tudo era um grande borrão. Parecia que estava tão drogada a ponto de não ter qualquer controle de seu corpo. As vozes que ouvia eram distantes e soavam metálicas.
- Você tirou todo o tecido mamário? - perguntou uma das vozes masculinas.
- Sim. Já coloquei os fragmentos nos potes de formol. Estamos aguardando ela retornar da anestesia. - respondeu a voz feminina.
- Retornar? Você sabe que essa mulher é a única testemunha do que estamos fazendo aqui, não é? Você realmente quer ter sua licença cassada? - o outro homem pareceu sobressaltado. De quem estavam falando?
- Não pode estar sugerindo o que estou pensando. - a misteriosa mulher respondeu.
- Aqui está. Faça agora. Sem perguntas. - disse o homem.
Lissandra queria saber o que estava acontecendo, mas seu corpo não a ajudava. 
- Desculpe-me por isso. - disse a voz da mulher, em tom de misericórdia. 
Então, Lissandra sentiu uma queimação percorrendo suas veias até atingir o coração. Um imenso vazio se propagou daquela região e foi desligando cada parte de seu corpo. Por último, sua consciência foi lançada à escuridão eterna e estava terminado. Estava tudo terminado.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Abissal - Parte 4

Quando Lissandra voltou a si, notou que a ardência havia sumido de seu peito. A visão voltou ao normal e ela respirou fundo. 
- Está tudo bem? - o homem lhe perguntou, colocando uma toalha molhada em sua testa. 
Ela tirou a cabeça e arrastou-se para trás, olhando para Marcos com uma expressão assustada.
- Ei, calma aí. Eu sou o Marcos. Acabamos de nos conhecer. Lembra? - ele disse, estendendo a mão na direção dela. A imagem dos minutos anteriores voltou à mente da mulher e ela se acalmou. 
- Meu Deus. Achei que eu já estivesse morta. O que aconteceu comigo? - ela passou as mãos pelo próprio corpo. 
-  Você foi curada. - ele disse, calmamente. - De seu câncer. 
Lissandra permaneceu alguns segundos em silêncio. Estava tentando descobrir se aquela era alguma brincadeira. 
- Como é? - perguntou, tentando se levantar. Sentiu uma fisgada na perna ferida e voltou a se sentar. - Merda! Tinha me esquecido disso aqui. 
- Espere um minuto. - Marcos disse, caminhando até o painel do controle digital do cargueiro. Apertou quatro botões, acendendo os quatro holofotes que iluminavam os contêineres. - Pronto. - ele disse, voltando para junto de Lissandra e estendendo novamente a mão para ela. - Venha, ajudo você a levantar. 
A mulher achou estranho o excesso de gentileza, mas aceitou o apoio.
- Ouça. - ele disse, apontando para a orelha com o indicador. Os gritos agonizantes da criatura cortaram o barulho da tempestade. 
- Que porra é aquela? O que está acontecendo aqui? - Lissandra estava cada vez mais desesperada. 
- Aquilo é uma espécie animal única. Especial, sem sobra de dúvida. - ele respondeu, com olhos de satisfação. 
- Especial? Ele arrancou um pedaço da minha perna. Como assim, especial? - Lissandra quase empurrou o homem para longe, mas conteve-se. Precisava do apoio que ele oferecia.
- Você está sendo negativa. Se ele não tivesse mordido sua perna, você não teria sido curada de seu câncer de mama. 
- Mas de que merda você está falando, cara? - ela se irritou, desvencilhando-se do braço de Marcos e dando alguns passos para trás. 
- Você quer me dizer que não sabia que estava doente? - a expressão de extrema satisfação tomou o rosto do homem, quando Lissandra respondeu negativamente com a cabeça. - Fascinante. Simplesmente fascinante. - ele disse. 
- Você vai me explicar o que está acontecendo aqui ou não? 
- Bom. - ele começou. - não sei como explicar isso sem uma má interpretação. O que estávamos carregando neste navio era uma esperança para a humanidade. 
"Há cinco anos, um grupo de pescadores profissionais navegava pelo mar de Recife, como costumava fazer habitualmente. Passaram uma semana em alto mar e, na última noite, enfrentaram uma tempestade marítima violenta. O único sobrevivente relatou que a tripulação havia sido atacada por uma criatura completamente diferente de todas que ele já tinha visto. Disse O animal surgiu da água e, supostamente, estava à procura de alimento, pois não hesitou em atacar cada um dos marinheiros, sempre levando consigo pedaços de carne humana. O sobrevivente relatou que também foi atacado pela criatura no ombro e mostrou a cicatriz. Disse que, havia alguns meses, vinha lutando contra o câncer de próstata e que, depois daquela noite, ele foi completamente curado. Ele conseguiu escapar em um bote salva-vidas, pois fora o único a descobrir a vulnerabilidade da criatura frente a qualquer fonte de luz. Também disse que antes de ser curado, sentiu uma queimação se propagar da ferida no ombro até a região da próstata, onde a terrível dor se instalou. Depois de vários exames, os médicos confirmaram que ele estava completamente curado da doença
A maioria dos médicos permaneceu cética ao depoimento do homem e o relatório médico foi preenchido alegando que o câncer fora eliminado por cura espontânea. Uma pequena parte do corpo médico do hospital ficou intrigada com os relatos do pescador. Sem que a comunidade científica soubesse, esse grupo de médicos uniu-se a militares aposentados da marinha brasileira e alguns farmacêuticos e se lançou em inúmeras expedições nas águas do litoral nordestino à procura da misteriosa criatura. Sempre levavam drogas tranquilizadoras potentes e diversos tipos de armas, cedidas pelos ex-membros da marinha.
Duas vezes ao ano, o grupo navegava por 15 dias em alto mar, esperando qualquer contato com o animal. Foi só na décima expedição, há cinco dias, que finalmente encontraram não um, mas dois animais., durante uma noite chuvosa. Eles foram capturados com dardos tranquilizantes, pois precisavam permanecer vivos para que as pesquisas fossem realizadas. 
Ao nos aproximarmos de Santos e da tempestade, os animais despertaram da sedação e caíram sobre a tripulação. Ninguém queria matá-los, pois todos prezávamos pela pesquisa. Isso fez com que alguns fossem mortos brutalmente e outros se lançassem ao mar revolto em desespero. Eu fui o único que sobrou de pé nessa expedição. Já era tarde, quando me lembrei da fraqueza deles por luz, mas pelo menos consegui prendê-los em contêineres. Estávamos conduzindo os espécimes para o porto. De lá,  seriam levados até o laboratório de biologia molecular da Universidade de São Paulo, onde começaria a fase de testes."
Lissandra o encarou, mal acreditando no que acabara de ouvir.
- Vocês estavam levando essas criaturas ao encontro de humanos? - perguntou, indignada.
- Por um propósito maior, sim. - Marcos respondeu. 
- E o que você é? Um dos médicos ou um dos militares? 
- Nenhum dos dois. Sou um dos farmacêuticos. Eu... - antes de completar a frase, Marcos viu, pelas janelas da cabine, um dos holofotes se apagando. Depois outro, e mais outro. Ele foi até o painel de controle da cabine e pegou um arpão acoplado ao disparador, em cima da escrivaninha. Entregou-o na mão de Lissandra e puxou uma pistola de dardos de um coldre improvisado. 
- Não atire na cabeça. - avisou à mulher.
- Você está brincando que ainda quer essa coisa viva! - Lissandra respondeu. Marcos não teve tempo de rebater antes de um dos vidros da janela se estilhaçar e revelar a figura da criatura marítima. Lissandra apontou o arpão.
- Fique calma. - advertiu Marcos. - Não atire na cabeça. Pelo amor de Deus, não atire na cabeça. Precisamos dele vivo. 
- O inferno que precisamos. - a mulher respondeu, apertando o gatilho. 

Abissal - Parte 3

Lissandra paralisou completamente, quando ouviu o rosnado grave do animal. Os olhos esverdeados da criatura brilharam no escuro, como se emitissem luz própria. O segundo rosnado tirou Lissandra do próprio transe e a fez disparar para fora do contêiner.
Novamente, sentiu a violência com que as gotas de chuva se chocavam contra seu corpo e a imponência da ventania. A luz azulada iluminou parcialmente o cargueiro, no momento em que um raio atingiu um dos mastros. A faísca se dissipou no ar e a parte superior à região atingida desabou. Lissandra aproveitou o clarão para vasculhar rapidamente o cargueiro. Ela avistou a cabine do capitão, que ficava dez metros à sua esquerda, e começou a correr naquela direção. O vento a atingia do lado direito, facilitando um pouco o percurso. 
A figura animalesca saiu do contêiner em um pulo e caiu sobre os quatro membros. Calmamente, ficou de pé sobre as pernas, que tinham a articulação do joelho voltada para trás, e endireitou a coluna.. A cauda pontuda e repleta de escamas dançou de um lado para o outro no ar. Assim como a cauda, todo o corpo do animal era coberto por escamas de cor verde jade, que se mexiam cima e para baixo de minuto em minuto. Os dedos curtos eram interligados por membranas de pele fina. As unhas eram cinzentas, grossas e levemente afiadas. De modo geral, o corpo era franzino e parecia fazer referência a um espécime intermediário entre humano e peixe, exceto pela cabeça, que parecia completamente fora de harmonia com o restante do corpo. 
A boca era oval, com lábios tão finos quanto um fio de cabelo. A gengiva negra projetava 16 dentes compridos e afiados, que se concentravam na parte da frente da boca. O nariz se resumia a três estreitas fendas acima do lábio superior. Os olhos eram verdes e arredondados e pareciam incapazes de exprimir qualquer expressão que não fosse a indiferença. Talvez fosse pela falta de sobrancelha e flexibilidade dos músculos faciais. O rosto parecia ter sido congelado daquela forma. 
Lissandra sabia que não havia indiferença no rosnado da criatura, mas sim uma selvageria natural. Mesmo assim, saber que se tratava de um comportamento animal não amenizava a seriedade da situação. Era por isso que queria chegar na cabine o mais rápido possível.
As pernas da criatura dobraram ainda mais para trás e ela virou a cabeça para cima. Avaliou o grande mastro alguns metros à frente e pulou. As palmas das mãos se grudaram ao metal frio, cinco metros acima do chão. A criatura pegajosa escalou rapidamente todo o mastro, como se aquilo fosse algo com que estivesse habituada. O vento e a chuva não afetavam em nada sua movimentação.
Quando atingiu o topo do mastro, a criatura colocou os olhos em Lissandra. Em seguida, lançou-se sobre os cabos de aço que conectavam o mastro a outros dois, e se segurou com as mãos e com os pés. Rapidamente, caminhou até a metade do cabo e pulou para baixo.
Lissandra sentiu o choque violento, antes de ser lançada ao chão. Alguma coisa havia caído sobre ela, mas não conseguia distinguir o que era aquilo. Suas mãos tocaram a superfície úmida e espessa do animal e ela sentiu um cheiro característico de peixe. Imediatamente, movimentou os braços e as pernas com violência, tentando se livrar da coisa que a mantinha no chão. Um dos chutes acertou o rosto da criatura que, em resposta, enterrou as unhas na panturrilha da mulher. Ela gritou, ao mesmo tempo em que sacudiu a perna para se livrar da criatura. As unhas enterraram ainda mais, lacerando o músculo a cada movimento. Lissandra parou de mexer a perna, e a criatura aproveitou o momento para abocanhar a carne tenra entre suas mãos. Uma grande tira de pele foi arrancada junto com parte do músculo. O sangue escorreu em protusão, formando uma grande poça vermelha que se diluiu na água da chuva. Lissandra soltou um berro agudo e, com a outra perna, chutou a criatura com toda a força que lhe restava. O animal cambaleou para trás, mas logo se empertigou novamente, mastigando o que havia retirado da mulher. 
Uma voz humana cortou a melodia assustadora da tempestade. 
- Use isso. 
Lissandra viu a silhueta humana, alguns metros à sua frente, fazendo um movimento com uma das mãos. O objeto caiu suavemente no chão e rolou até encontrar a perna da mulher. Rapidamente, ela tomou a lanterna na mão e acendeu, mirando o feixe de luz no rosto do estranho animal. A criatura rosnou novamente, afastando-se da luz e levando as mãos à frente do rosto. 
A figura humana se aproximou e estendeu a mão para Lissandra. Ela estendeu a mão de volta e se deixou ser colocada de pé. 
- Venha comigo. - O homem passou o braço pela cintura dela. - Continue mirando a lanterna nele. Não pare de mirar. 
Ela obedeceu, girando um pouco a cabeça para o lado esquerdo, para enxergar melhor o feixe da lanterna. 
A criatura andou para a frente tateando o ar, aparentemente sem enxergar. Quando voltou a abrir os olhos, a luz da lanterna de Lissandra os encontrou e a criatura deu outro rosnado grave e rouco. Começou a pular freneticamente, de um lado para o outro, como se estivesse tendo uma crise de insanidade temporária. 
Aqui, aqui. Chegamos. - disse o homem, abrindo a portal de metal da cabine do capitão. Gentilmente, ele empurrou Lissandra para dentro e trancou a porta quando entrou. 
- Quem é você? - perguntou ela, apoiando-se na parede e deslizando até o chão. 
- Meu nome é Marcos. Marcos Dias. - disse ele, abaixando o capuz da jaqueta. - E você é...
- Lissandra Medeiros. Onde está o resto da tripulação? - ela massageou a perna no lugar da mordida. Sentia a panturrilha latejar.
- Estão Mortos. Todos mortos. - o homem respondeu, estendendo uma garrafa térmica para ela. - Beba. Deve estar com sede. 
Lissandra pegou o objeto com desinteresse. Antes de levar a garrafa à boca, sentiu uma queimação subindo sua perna. 
- O que é isso? - perguntou, desesperada e levando as mãos ao local da ferida. - Que porra é essa? - ela gritou, enquanto a queimação subia pelo seu ventre. Largou a garrafa térmica e gritou. Era como se estivessem passando um maçarico em sua pele. A queimação parou de subir, quando atingiu o seio esquerdo e, foi neste lugar que se intensificou. Lissandra teve a convicção de que estava tendo um ataque cardíaco e que morreria dali uns minutos, tamanha era a dor que irradiava de seu peito. A visão escureceu e ela sentiu um ânsia incontrolável. Levantou-se da parede, mas logo caiu sobre os joelhos, enquanto era dominada por uma crise de labirintite terrível. O jorro de vômito atingiu o chão da sala com força, respigando para os lados. Então, Lissandra sentiu o corpo tombar para o lado e sua consciência se apagou. 

domingo, 12 de outubro de 2014

Abissal - Parte 2

O cargueiro parecia estar completamente à deriva. Nem ao menos apresentava resistência ao movimento da água. Apenas 20 contêineres ainda restavam em cima da embarcação, de modo completamente desorganizado. A sigla TRAMAB em cor branca se destacava na lateral do casco.
Lissandra ajustou a frequência do rádio e tentou se comunicar com alguém da tripulação. Não houve resposta. Ela acompanhava o cargueiro com o olhar fixo. Estava se aproximando cada vez mais. 
Pegou o rádio novamente e tentou se comunicar dom o chefe:
- Andrei, está na escuta. Câmbio? - nenhuma resposta. - Andrei, está na escuta? Câmbio. - silêncio absoluto. 
- Merda. - ela murmurou, jogando o rádio para o lado. Caminhou até a escadaria, mas viu o quanto a água havia subido. Voltou para a janela de vidro e observou com atenção. O cargueiro estava a meros 20 metros de distância. Ela entrou em pânico. Não havia a menor possibilidade de enfrentar o mar violento. Certamente morreria afogada antes de sequer avistar a praia. Quais eram as suas opções? Deveria ficar até ter condições de voltar para terra firme. Sabia que era assim que funcionava.
Quando a embarcação estava a dez metros de distância, Lissandra sentou-se, encostada na parede, e segurou as próprias pernas. Cada segundo até o impacto foi sufocante.
A parte imersa do cargueiro atingiu os rochedos da pequena ilha, diminuindo a velocidade e força do impacto da proa no farol. O tremor se propagou por toda a estrutura com o choque da batida. Toda a parede que recebeu o impacto começou a ruir. As pedras iam caindo uma a uma, fazendo com que o resto da estrutura tombasse para o lado do defeito.
Lissandra tentou desesperadamente se agarrar a qualquer coisa, mas não conseguiu controlar o próprio corpo, que foi puxado violentamente pela gravidade. Soube que estava em queda livre, quando sentiu o característico frio na barriga. Levou as mãos ao rosto para se proteger do impacto com a água. O vidro da janela se despedaçou e minúsculos cacos penetraram em suas mãos e braços. Ignorando a ardência, ela tentou nadar para a superfície, mas uma das enormes pedras atingiu-lhe as costas, fazendo-a afundar ainda mais. Lissandra sentiu o ar sair de seus pulmões com a dor da pancada e, num reflexo infeliz, tentou respirar. A ardência se propagou por todo o rosto, quando a água salgada fez caminho pelas cavidades nasais. Ela nadou o mais rápido que podia em direção a superfície. Inspirou profundamente com a boca, assim que encontrou ar puro. 
Tentou manter a calma, embora não houvesse muito o que ser feito naquela situação. Sabia que era inútil resistir à força da correnteza, sem ter algo a que se agarrar. A confusão visual e mental era tanta, que ela só viu o cargueiro quando este estava a dois metros dela. A embarcação tinha se movido ainda mais em direção à ilha e seu grande casco se prendera nas pedras. 
Alguns cabos de aço pendiam das bordas do cargueiro e afundavam na água. Lissandra não pensou duas vezes, antes de agarrar um deles. Quando fechou as mãos, sentiu a dor lancinante nas palmas e nos dedos. Mas ela tinha que fazer aquilo. Era a única opção, se quisesse se manter viva até pensar em como sair da situação. 
Levou o corpo um pouco para cima e sentiu os cacos penetrarem ainda mais na carne. As pernas ainda não haviam saído da água. O cabo balançava de um lado para o outro e era extremamente difícil manter-se imóvel. Lançou-se mais uma vez; o grito de dor agudo desaparecendo na canção tenebrosa do mar. Mais um movimento e as pernas estavam fora da água. 
O vento violento fazia com que tivesse que se segurar com força quase sobre-humana. Ela não podia continuar daquele jeito. Não chegaria ao navio com as mãos repletas de cacos de vidro. Arriscou segurar-se no cabo apenas com a mão direita. O corpo deslizou um pouco para baixbro, quando o cabo se mexeu, mas ela conseguiu se manter presa. Levou a palma da mão esquerda à boca e retirou caco por caco com os dentes. Não poderia ser impedida pela dor. Trocou as mãos rapidamente e retirou os cacos da mão direita. Claro que a dor ainda permanecia, mas ao menos não corria mais o risco de lesar alguma inervação e perder o movimento dos músculos. 
A natureza não estava sendo nem um pouco misericordiosa. Durante a subida, Lissandra se chocou contra o casco do cargueiro inúmeras vezes. Seu corpo todo doía por conta das pancadas, mas não era como se pudesse parar. Estava lutando pela própria vida. 
Quando finalmente agarrou a borda do cargueiro, lançou-se rapidamente para dentro e deixou o corpo desabar de costas. A chuva atingia seu rosto com violência, enquanto ela tentava recompor as energias. Com os olhos fechados, tateou à própria volta à procura de qualquer estrutura em que pudesse se apoiar. Sem sucesso, virou de bruços e levou um dos braços à frente dos olhos. O campo de visão melhorou consideravelmente. Rastejou até um dos contêineres, a três metros de distância, e fechou e segurou-se com força. Depois de bastante esforço, conseguiu se colocar de pé, contra a vontade da ventania. Se ao menos pudesse chegar até a cabine do capitão!
Com cuidado, contornou todo o contêiner e sentiu as armações metálicas de sua complicada fechadura. Antes de abri-lo, rezou para que estivesse vazio, ou estaria em uma péssima situação, caso a mercadoria despencasse sobre ela. Com pouca força, as trancas se abriram e revelaram o vazio. Lissandra lançou-se imediatamente para dentro e, inutilmente, tentou fechar as portas por dentro. O vento era mais poderoso do que seus braços. Ao ver que aquela era uma batalha inútil, afastou-se das portas, andando de costas, cada vez mais para o fundo do contêiner. Só parou de andar quando se deparou com uma estrutura firme. Julgou que tinha chegado no fundo da estrutura , mas uma respiração ruidosa a fez mudar de ideia. 


Abissal - Parte 1

O grande farol exibia sua imponente estrutura de pedra a dois quilômetros da praia da Pompéia, em Santos. Erguia-se de uma pequena porção de terra, que permanecia estática com o rebentar das grandes ondas. 
O céu, pouco a pouco, adquiria a tonalidade cinzenta dos dias chuvosos. Os ventos de 20 km/h balançavam as vistosas palmeiras, que embelezavam a orla marítima. Os habitantes do bairro iam e vinham, munidos de seus guarda-chuvas, levando a sério a previsão do tempo para aquele sábado incomum. Os noticiários haviam levantado a possibilidade de uma forte tempestade, com ventos de até 80 km/h, atingir toda a baixada santista na parte da noite. Alguns habitantes estavam apavorados e não podiam deixar de imaginar a presença de ondas gigantescas engolfando toda e qualquer estrutura da cidade. 
Claro que aquilo era um exagero, mas era justificável que pessoas de todo o mundo ficassem apavoradas com qualquer manifestação marítima, após o grande incidente do Tsunami no sudeste asiático. 
A serra do mar estava congestionada no sentido Santos - São Paulo. Muitas famílias haviam se apavorado com a tempestade ameaçadora e resolveram buscar refúgio nas cidades do ABC Paulista. 
Estava prevista a chegada de cinco navios cargueiros no Porto de Santos ao longo do dia. Um péssimo dia para navegarem na Baixada Santista, sem dúvida. 
Lissandra havia sido escalada para cuidar do funcionamento do farol naquele dia. Em dias de agitação marítima e baixa visibilidade, o farol devia estar em perfeito estado, para garantir que as embarcações se localizassem em relação ao Porto.
Lissandra era a única mulher da equipe responsável pela manutenção e comunicação do farol da Praia da Pompéia. Obviamente, isso gerava situações desconfortáveis com os colegas de trabalho e com as tripulações dos navios. Ela era constante alvo de flertes e piadas sobre suas habilidades demasiadamente femininas, ainda que não devesse em nada para o trabalho de seus parceiros boçais. Lissandra amava o que fazia e, por isso, o fazia com excelência. O contato constante e íntimo com o mar lhe conferia uma paz de espírito indescritível. Não havia nada que lhe proporcionasse mais prazer do que o ruído das ondas se quebrando nos rochedos e o cheiro do sal marítimo que se levantava das espumas. A agitação do mar era diretamente proporcional ao seu bem estar. 
Às 18 horas, Lissandra estava sentada na cabine de comunicação, no topo do farol. Observava as gotículas da chuva fazendo caminhos sinuosos na janela de vidro à sua frente. O céu cinza-escuro enviava a mensagem de que algo poderoso estava para chegar. 
O ruído das caixas de som a fez dar um pulo na cadeira. 
- Lissandra, como estão as coisas por aí? Câmbio. - a voz sobressaltada de seu chefe ecoou por toda a torre. Antes de responder, ela levou a mão ao botão do volume e girou para esquerda.
- A visibilidade diminuiu bastante. O farol está funcionando normalmente. Até agora nenhum sinal da embarcação. Câmbio. - respondeu.
- Fique atenta. As coisas vão piorar bastante daqui algumas horas. Deus ajude a tripulação. Câmbio, desligo.
Lissandra não respondeu de volta, mas estava bastante preocupada com a única das cinco embarcações que ainda não havia atracado no porto. Ainda que fosse apaixonada pelo oceano, sabia que nunca queria estar em alto no mar no meio de uma tempestade marítima. Por um momento, colocou-se no lugar dos homens da embarcação e sentiu o desespero dessa ideia. Que azarados!

Por mais tedioso que fosse o trabalho no farol, Lissandra sempre arrumava uma maneira de passar o tempo da melhor maneira possível. Seguia um ritual clássico: durante as duas primeiras horas, observava, hipnotizada, as ondas rebentando nos rochedos e lançando a espuma branca para todos os lados. Nas horas seguintes, fazia palavras cruzadas e sudoku. Vez ou outra, revivia o antigo Game Boy Color, que conservava em perfeito estado, para jogar clássicos como Pitfall e Turok. Divertia-se com os portáteis antigos. Não era fã do realismo dos jogos atuais. Talvez por puro saudosismo e nostalgia. 
Mas, naquele dia, ela sabia, em seu inconsciente, que alguma coisa diferente estava para acontecer. A manifestação física disso era um vazio inexplicável dentro do peito. 
Foi às 22 horas que a chuva começou a se intensificar. Os pingos grossos tamborilavam no vidro, reproduzindo a melodia selvagem da natureza. O vento forte produzia uma leve vibração nas pedras sobrepostas que compunham o farol, dando a impressão de que a estrutura tinha vida própria. Lissandra soube, naquele momento, que não deveria estar ali. Não fazia parte daquele espetáculo.
Às 23 horas, os ventos haviam atingido a velocidade máxima. A maré estava tão alta, que o farol já havia sido preenchido por uma coluna de água de cinco metros, tampando boa parte da escadaria em espiral. A pequena porção de terra, que servia de sustentação para o farol, havia desaparecido completamente. 
Lissandra estava acostumada com situações em que o mar se mostrava revolto, mas aquilo era algo novo. O problema era que estava completamente ilhada e não havia qualquer opção, a não ser aguardar o desfecho da tempestade. Olhava ansiosa para o horizonte, acompanhando o feixe luminoso do farol. Então, avistou a grande figura negra, que balançava no ritmo frenético das ondas e era conduzida em direção à praia. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Patrulha da Noite - Parte 5

3:30 - Eu guardei o celular de Abel no bolso e vasculhei a grande câmara à procura de alguma outra saída. O teto era tão alto, que eu quase não podia enxergar seu limite. Ainda não encontrei outra maneira de sair daqui senão pela qual entrei. Mas a câmara é grande demais. Talvez exista alguma outra fresta que tenha me passado despercebida, mas estou lutando contra o tempo. Isso é o covil da criatura e, mais ou cedo ou mais tarde, ela retornará para cá. 
Já acostumei com o cheiro da cadaverina. Não o sinto mais com a mesma intensidade. Eu estive pensando em algo que ouvi no depoimento de meu "chefe". O pescoço dele também foi perfurado pela língua da criatura. Será que é uma forma dela criar uma conexão mental com alguém? Será que eu sou o próximo responsável por manter o acordo entre os humanos e o monstro? Não. Acho que não pode ser isso. A criatura me largou, porque alguém atirou em seu olho. Eu me pergunto se ela teria me soltado, caso ninguém tivesse intervindo por mim. 
Estou ficando desesperado com a imensidão desse lugar. Qualquer ruído baixo me faz olhar para os lados em busca da figura aterrorizante. Deus, por favor, ajude-me a sair dessa situação. 

4:00 - O homem que me salvou do ataque encontrou a gruta. Lancei-me debaixo dos ossos, quando ouvi o barulho de seus passos, pois jurava que o monstro havia retornado. Então, vi o feixe luminoso de sua lanterna cruzar de um lado para outro e gritei antes de levantar. 
- Eu vou me levantar. Não atire. 
- Onde você está? - a voz do homem gritou de volta. Notei que se tratava de Roberto, um dos meus companheiros do turno da noite. 
- Estou debaixo de uma pilha de ossos. - respondi, levantando-me calmamente. 
- Cara, que nojo! - ele gritou de volta. - Já levantou? 
- Sim. Estou aqui. Mira a sua lanterna. 
Vi o ponto luminoso de sua lanterna e percebi o quão longe estávamos um do outro. Acendi a minha lanterna e pisquei algumas vezes. 
- Conseguiu ver? - perguntei.
- Sim. Estou indo até você. - ele respondeu. Ouvi o partir dos ossos, à medida que ele se aproximava. Demorou cinco minutos para chegar até mim. 
- Algum sinal da criatura? - perguntei. 
- Nada. Eu corri até ela depois de ter atirado com essa belezinha. - ele falou, batendo no rifle semi-automático pendurado em seu braço. - Mas tinha desaparecido. Eu estava procurando, quando encontrei essa gruta. Essa merda é o covil dela, não é?
Eu assenti com a cabeça, tirando o celular de meu bolso.
- Encontrou os outros rapazes? – perguntei.
- Encontrei a cabeça de Carlos no pé de sua torre. Não sei nada do resto.  
- Que merda. Ei, ouça isso aqui. - disse a ele, apertando o play na gravação e entregando-lhe o celular. 
Ele ouviu a gravação até o final e me olhou com uma expressão confusa.
- Você está querendo dizer que esse merda armou pra gente? - perguntou indignado. 
- É o que parece. Não sei se é culpa dele, para falar a verdade. - respondi. - Olha isso aqui. - apontei a lanterna para meu próprio pescoço, deixando evidentes as marcas da língua da criatura. 
- Porra! Você viu alguma coisa? - ele encarou as feridas com misto de nojo e surpresa. 
- Nada. - respondi. Então, eu... MERDA!

5:00 - O monstro nos surpreendeu. Ouvimos o rosnado ensurdecedor vindo de algum lugar acima de nossas cabeças. Apontei a lanterna para cima e vi o vulto pendurado nas estalactites. Roberto empunhou o rifle e atirou. A criatura se mexeu antes que o disparo a acertasse. Eu tentava acompanhar seus movimentos rápidos com a lanterna, mas era quase impossível. Eu ouvia o barulho de garras se fixando nas formações rochosas. As estalactites começaram a se desprender do teto e a cair por todos os lados. Começamos a correr na direção do túnel, mas encontrar a pequena entrada na vasta escuridão não era algo fácil. Os feixes das lanternas dançavam de um lado para o outro, acompanhando o ritmo frenético de nossos movimentos.
Os esqueletos não estavam ali apenas como restos de alimentação. A criatura fora esperta o suficiente para deixar o solo o mais irregular possível, atrasando suas vítimas. Quando finalmente avistamos a entrada, ouvi um grande baque atrás de mim. Virei-me para trás e vi a nuvem de pó branca que subia dos ossos partidos. A perna de Roberto havia se prendido em uma pilha de ossos e ele tombou para frente. Voltei alguns passos e o ajudei a se levantar. 
- Vamos, cara. Estamos quase lá. - eu disse a ele.
- Minha perna está presa. Caralho! - ele tentou puxar a perna e soltou um grito. - Alguma coisa está rasgando minha panturrilha, porra. 
- Desculpa por isso. - eu falei, ao mesmo tempo em que agarrei seu braço e puxei com força. Roberto gritou mais uma vez e eu ouvi o barulho da ponta óssea rasgando sua perna. 
Quando ele deu o primeiro passo, outro baque fez com que a nuvem de pó branco subisse novamente. Eu não tive tempo de sacar a pistola. A criatura perfurou as costas de Roberto e eu vi suas garras saindo pelo peito do guarda. 
- NÃO. - eu gritei, apontando a arma para a cabeça do monstro. Atirei quatro vezes sem sucesso. 
Então, as garras desceram, dividindo a parte debaixo de Roberto em duas. Vi seus órgãos internos caindo no chão e a expressão de choque em seu rosto. O monstro segurou os dois braços de Roberto e terminou de dividi-lo em duas partes. Jogou uma das partes para longe e abocanhou gigantescos nacos de carne da metade que ainda segurava na mão. 
Eu caí sobre meus joelhos e observei a cena com pavor. Eu seria o próximo. 
Mas então, minha mente se apagou e a alucinação finalmente apareceu. 
O rosto da criatura estava praticamente colado em meu. Sentia o hálito pútrido de sua respiração. As palavras articuladas pareciam pertencer a um sofisticado conde ou algo do tipo. 
- Você sabe o que eu quero. - ouvi-lo dizer. A imagem se dissipou e eu fui devolvido com violência à realidade. Ele ainda se alimentava de uma das metades de Roberto e olhava fixamente para mim. 
Eu assenti com a cabeça e ele voltou os olhos para seu próprio banquete.
Depois de comer a outra metade de Roberto, a criatura deitou-se sobre sua pilha de ossos e apagou, como uma criança exausta. Parece estar completamente ausente desse mundo. É como se estivesse hibernando.

Fico pensando nesse pacto nefasto que acabei de selar. Eu tenho uma esposa. Tenho uma filha de cinco anos que precisa da presença do pai. Eu não quero abandoná-las. Não posso fazer isso. Ele me escolheu. Será que eu deveria me sentir lisonjeado? Do que se trata isso? De alguma provação ou plano divino para me mostrar o valor da resignação? Não. Não posso acreditar que Deus tenha qualquer coisa a ver com isso. Não é possível que ele permitiria a existência de algo tão monstruoso. Isso é a ausência total e completa de Deus. O que vejo em minha frente é a representação dos piores medos humanos. 
Eu compreendo. Somos parte da cadeia alimentar, de uma forma ou de outra. Não poderia ser diferente. Só me pergunto qual seria o predador dessa monstruosidade.

Um ano depois - As feridas de meu pescoço doem, como se para me lembrar de minhas obrigações para com a criatura das trevas. Eu não prossegui com minha parte do pacto, se é isso que você está se perguntando. Resolvi esquecer de vez essa história. Minha família e eu nos mudamos para o norte do país, onde é quente o ano todo. Estamos seguros aqui. 
É claro que nunca contei a qualquer pessoa o que aconteceu. Não confio nas abordagens militares que seriam tomadas frente a essa situação. Apenas rezo para que a criatura encontre alguém que aceite o serviço sujo. 

Acabo de ter uma alucinação com a criatura. Suas mãos estavam enterradas em minha barriga, enquanto ela dizia uma única frase.
- Estou chegando até você.
Parece-me que eu tenho contas a acertar.



A Patrulha da Noite - Parte 4

03:00 - Eu geralmente ouço pessoas falando que as coisas acontecem por um motivo, mesmo que não saibamos qual é. Bom, para falar a verdade, eu duvido que essas pessoas já passaram por uma situação semelhante a essa. Tudo o que consigo pensar nesse momento é em como fui azarado de acabar em um lugar como esse. 
Explorando a gruta, notei que havia uma passagem estreita no paredão rochoso onde o riacho parecia parar de correr. Se eu tivesse problemas de claustrofobia, teria um surto psicótico, com certeza. A passagem era tão estreita, que minhas costas foram arranhadas pelas protuberâncias rochosas, enquanto eu tentava chegar a algum lugar. 
Andei espremido por vinte minutos até chegar ao fim do "corredor". A passagem dava acesso a uma pequena câmara de teto alto. Senti um arrepio ao mirar as inúmeras estalactites e imaginei que qualquer tremor poderia fazer com que elas caíssem e perfurassem todo o meu corpo. 
Vasculhei a pequena câmara com a lanterna e vi que, no alto de uma das paredes, havia uma abertura. Lancei o feixe de luz na fenda e notei que se tratava de outra passagem. Prendi a lanterna na calça, tomei um impulso e lancei-me para cima. Não consegui alcançar a abertura da primeira vez, nem das cinco vezes seguintes. Na sétima vez, minhas mãos tocaram alguma estrutura maciça e cilíndrica, como se fosse a alça de uma grande gaveta. Achei aquilo estranho, mas não hesitei em subir no pequeno túnel. 
Eu precisei engatinhar para percorrer o túnel, já que a altura não passava de um metro. Ainda assim, essa passagem era muito mais espaçosa do que a primeira. Pelo menos eu pude privar minha barriga e meu peito de ferimentos indesejados. Depois de alguns metros, senti o meu ombro latejar onde a bala havia me atingido de raspão e parei para descansar. Assim que a dor aliviou, prossegui.
O que se revelou no fim do túnel foi desesperador. Antes de analisar o visual do novo ambiente, senti o cheiro pútrido preencher minhas narinas e a vertigem que isso me causou. Ao contrário da câmara anterior, o túnel terminava na parte baixa da parede. 
A câmara era muito maior do que a outra. Para falar a verdade, era incrivelmente maior do que qualquer gruta que eu já tenha visitado. Mas não foi o tamanho que me chamou a atenção. Foram os inúmeros esqueletos espalhados por todo o lugar, compondo a imagem de um ossário gigantesco. Não existe qualquer ponto do chão em que se possa pisar sem esmagar um osso. Além dos esqueletos, alguns corpos em estado de putrefação estavam espalhados pela câmara. Sem esforço, era possível ouvir o barulho das larvas cavando caminho pela carne apodrecida. 
Encostei-me à parede e caminhei de lado, tentando não esmagar os ossos. A alguns metros de mim, o corpo de um guarda florestal jazia inerte. Ainda não havia entrado em estado de decomposição, mas não estava totalmente preservado. Aproximei-me dele e notei o ferimento circular em sua fonte esquerda. A pistola estava caída ao lado do corpo. Então, reconheci o homem. Era meu empregador, Abel, o homem responsável pelo recrutamento de novos guardas florestais. Aquilo me apavorou. 
Eu me abaixei lentamente e peguei a pistola Sig Sauer do chão. Alguma coisa me disse que eu deveria tatear o corpo do guarda em busca de qualquer coisa. Assim o fiz, retirando apenas o celular do bolso de sua jaqueta. Desbloqueei a tela e vi o aplicativo de gravação de voz ativo. O botão play tomava grande parte da tela. Antes de apertar o play, certifiquei-me de abaixar o volume. Então, a bizarra mensagem ecoou:

"Fazem 20 anos que estou nesse esquema. Não sei dizer ao certo o motivo de ter sido escolhido pela empresa, mas eu devia ter desconfiado. A começar pelo fato de não sermos vinculados à polícia, mas recebermos o aval da mesma para portar arma de fogo. No início, eu não suspeitava que algo do tipo pudesse existir, mas existe e é simplesmente aterrorizador.
Mas o que eu poderia ter feito? Eu morava na rua, largado à própria sorte, sobrevivendo de migalhas e esmolas. Nem ao menos sei de onde vim ou quem são meus pais. Desde que me entendo por gente pertenço às ruas. Ou melhor, pertencia. Veja, eu sempre fui honesto. Nunca roubei sequer um pão. Eu nunca aceitaria isso de forma consciente. Na verdade, nunca aceitei. 
Eu fui contratado no outono de 1994. Os três primeiros meses foram bastante tranquilos. A floresta era como outra qualquer e não havia nada em sua atmosfera que sugerisse algo monstruoso. 
Foi no inverno que o terror aconteceu. Na noite mais fria do ano, a criatura nos encontrou. Um a um, eu vi meus companheiros de trabalho serem destroçados pelos dentes e garras afiadas. A criatura teve a oportunidade de me matar, mas poupou a minha vida. Tudo o que ela fez comigo foi cravar as estranhas espículas de sua gigantesca língua em meu pescoço. Eu achei que tinha conseguido me livrar por conta própria do ataque, mas eu estava completamente enganado. 
Corri o mais rápido que pude, até chegar nesse lugar. Quando percebi que essa gruta era um grande cemitério, me dei conta de que estava tudo acabado para mim. Não havia qualquer chance de escapar do terror. Depois de algumas horas sem sinal da criatura, senti as feridas de meu pescoço arderem intensamente e um mal estar absurdo tomou conta de meu corpo. Minha mente apagou-se lentamente e reacendeu alguns segundos depois, como se eu tivesse entrado em algum sonho. Eu vi a bizarra criatura parada de frente para mim. Sua boca não se movimentava, mas as palavras que eu ouvia pertenciam a ela e não podiam ser mais claras.
- Alguém deve assumir o lugar do outro. Esse era o trato. Vocês trazem o meu alimento e eu não ataco a civilização de vocês. Vocês não mexem no meu habitat e eu não faço um massacre. E não adianta fugir. Não é como se você tivesse para onde correr. 
Eu o observei, estupefato. Não consegui responder coisa alguma. Apenas tentei compreender o que o monstro queria dizer com aquelas palavras. 
- Você sabe o que quero de você. Todo inverno, na noite mais fria. Esteja sempre preparado.
Então eu compreendi o que ele queria de mim. Verdade seja dita, como eu poderia ter recusado? Era como se eu tivesse que escolher entre a vida e a morte. No auge de meu desespero, não pensei nas consequências de minha escolha. Diariamente, peço ao Senhor que me perdoe por compactuar com uma criatura das trevas. 
No momento em que concordei, sua imagem se desfez de minha mente e eu voltei à realidade. Eram cinco horas da manhã, quando a criatura voltou para sua toca. Tive medo de que aquilo que eu acabara de presenciar não passasse de uma ilusão, causada por alguma toxina de sua saliva. A criatura se aproximou de mim e olhou-me com aqueles olhos terríveis. Depois de alguns minutos, virou as costas e foi deitar-se em uma pilha de carcaças. Seus olhos se fecharam e o corpo parou de se movimentar. 
Eu saí da gruta ao primeiro sinal da alvorada. Não precisei dizer coisa alguma sobre o que tinha acontecido ao meu chefe. Ele sabia o que se escondia naquela floresta. Ele compactuava com aquilo. Foi por isso que, depois daquela noite, ele me nomeou como chefe da equipe de seleção de novos funcionários.
Desde então, tenho contratado os sem-teto, os mendigos e andarilhos para fazerem parte da equipe de guardas florestais. Não é que os marginais sejam descartáveis, mas o fato de não possuírem família e serem completamente invisíveis para a sociedade evita investigações que possam levar até o monstro. E eu tenho certeza de que ele não gostaria disso.  Eu tenho que garantir que existam dez pessoas na floresta, durante a noite mais fria do inverno. Nunca sequer cogitei a possibilidade de não cumprir com meu trato. Sabe-se lá as consequências que isso traria para mim e para as outras pessoas.
Mas nem tudo de ruim veio desse encontro com o monstro. O meu interesse por ele foi tão grande, que eu me forcei a aprender a ler e escrever. Eu queria estudar as ciências. Queria saber se existia alguma espécie semelhante àquela criatura. Não demorei muito para perceber que eu não estava lidando com algo corriqueiro. O monstro não se enquadrava em qualquer gênero ou espécie. Para falar a verdade, não me parecia que se encaixasse como elemento da natureza. 
Então, direcionei meus estudos para a literatura fantasiosa. Estudei o folclore de diversos países para chegar a um nome que ressoa em minha cabeça desde então: Wendigo
Durante algum tempo, senti-me privilegiado por poder fazer parte de algo tão incrível. Eu era uma das únicas pessoas do mundo que sabia de um incrível segredo. Mas as coisas mudaram. Eu já não me sinto mais assim. Eu arquiteto massacres. Eu ofereço estabilidade, abrigo e uma vida digna às pessoas, quando na verdade estou lançando-as direto para a morte. Isso começou a pesar para mim.
Dessa vez não consegui recrutar andarilhos, ou mendigos, ou miseráveis. Parece-me que o número de marginais diminuiu consideravelmente nos últimos anos e fica cada vez mais difícil encontrar dez exemplares. No fim das contas, acabei escolhendo homens de baixa renda; homens que possuem uma família para sustentar; homens que, juntamente com suas esposas e filhos, tentam sobreviver à sociedade com determinação e força de vontade. Eu ferrei com tudo. Ferrei com famílias e ferrei com o absoluto sigilo que havia prometido. 
Eu não vejo como lidar com essas coisas mais. Não vejo sentido nisso que estou fazendo. Eu preciso dar um fim nisso tudo o quanto antes. Tudo isso se tornou insustentável para mim."

Eu estou com o celular em minha mão e não sei o que fazer. A criatura pode voltar a qualquer momento. Tenho que dar um jeito de sair daqui. Não posso aguardar pela morte, parado. Minha esposa e minha filha dependem de mim.