Havia duas semanas que ele vinha sentindo algo perturbador.
Não sabia definir exatamente o que era aquela sensação incômoda que o deixava
extremamente agoniado. Evitava falar sobre o assunto com outras pessoas, pelo
simples fato de saber que seria mal interpretado. Não era culpa das pessoas,
mas sim do vocabulário ineficiente de que a humanidade dispunha.
Durante todas as noites ele vinha experienciando o chamado
"sonho lúcido". Nunca, em seus 28 anos de idade, tivera qualquer
episódio de catalepsia. Depois da primeira experiência, custava-lhe adormecer,
pois os sonhos estavam ficando cada vez mais intensos. Na última semana, havia
se arrependido da ideia de morar em um loft, pois seu quarto nada mais era do
que o mezanino. Nos sonhos lúcidos, a figura sombria de suas alucinações
aparecia no parapeito do mezanino, como se estivesse flutuando, e avançava lentamente
em sua direção, pressionando-o contra a cama, enquanto ele tentava
desesperadamente abrir os olhos e alcançar o interruptor. Era simplesmente
aterrorizador ter consciência de que estava sonhando e não poder fazer nada a
respeito disso.
Quando os sonhos começaram, ele pensou que pudessem ter
relação com seu grande fascínio pelo ocultismo. Ultimamente, vinha pesquisando
incansavelmente sobre o tema. Não se restringia a apenas uma vertente
religiosa, mas abraçava a filosofia de todas. A única ideia que não lhe servia
para nada era o maniqueísmo. Não acreditava na divisão simplória do mundo entre
bem e mal, pois sabia que o comportamento e a mentalidade humanos eram
complexos demais para serem resumidos a dois caminhos. Por isso, ignorava
completamente a existência de forças ou espíritos malignos. Mas talvez o mundo
oculto quisesse lhe mostrar alguma coisa. Talvez fosse uma forma de lhe dizerem
"mantenha distância".
Foi no dia 31 de outubro que o horrível aconteceu. Ele estava deitado em sua cama king size e assistia à uma maratona dos filmes "Halloween", como sempre fazia nessa data em todos os anos. Não sabia explicar o motivo pelo qual a data o atraía tanto, mas captava algo diferente na ocasião e sentia-se na obrigação de celebrar.
Eram 23:30 e assistia a Halloween V, quando o sono o
abraçou de vez. Diferente de todas as outras noites, o sonho lúcido não veio.
Ao invés disso, foi arrancado violentamente do sono por um sussurro bem ao pé
de seu ouvido. O ar quente veio junto com o som, fazendo com que um calafrio
tomasse conta de todo o seu corpo imediatamente. Virou-se rapidamente de
barriga para cima e sentou-se, fitando o vazio. A TV exibia a tela do menu
inicial do DVD Player. Olhou para os lados e não viu coisa alguma.
- Que besteira! - disse para si mesmo, procurando os
controles remotos dos equipamentos. Ele jurava que os tinha deixado ao lado do
travesseiro como sempre fizera. Estava sonolento demais para ficar procurando
pelo quarto. Então, levantou-se da cama e apertou o botão "power" do
DVD e em seguida o da TV. A única coisa que continuava a iluminar fracamente o
quarto era o abajur de lava, que ficava em cima do criado mudo. Mas a pouca
luminosidade foi o suficiente para permitir que ele visse o reflexo da figura
humana na televisão desligada. O ritmo cardíaco acelerou e as extremidades de
seu corpo ficaram geladas. O estômago parecia se contorcer, enquanto o resto do
corpo permanecia estático. Levou um tempo até que conseguisse juntar
força para se virar para trás e notar que não havia ninguém no quarto. Estava
sozinho e, achar que estava sendo assombrado era pura estupidez.
"Minha mente está tentando me pregar uma peça".
Pensou, embora não acreditasse totalmente naquilo. Era quase como se sentisse
uma presença imaterial ali perto.
Ignorando completamente a sensação, deitou-se novamente na
cama e fitou o teto escuro. À medida que seu corpo se acalmava, os olhos iam
ficando cada vez mais pesados, até finalmente se fecharem. Estava prestes a
pegar no sono, quando ouviu o barulho de algo se arrastando embaixo da cama.
Abriu os olhos imediatamente e ouviu com atenção. Não havia qualquer ruído.
Será que estava sofrendo de alucinações por conta do distúrbio do sono?
Estendeu a mão até o criado mudo, abriu a primeira gaveta e
tateou em busca da faca de caça que guardava para uma eventual emergência.
Depois de fechar as mãos firmemente sobre o punho da faca, esgueirou o corpo
pela beirada da cama e tentou encontrar o que havia produzido o barulho. Nada.
Voltou a se deitar de barriga para cima e segurou a faca
com as duas mãos junto à barriga. Não tinha fé em qualquer divindade, mas
naquele momento rezou com todas as forças.
- Não há escapatória. - sussurrou uma voz em seu ouvido,
fazendo com que pulasse da cama e caísse de costas no chão. Colocou-se de pé no
mesmo segundo e empunhou a faca na direção da cama.
- O que você quer? - gritou, afastando-se em direção à
escada.
- Você saberá. - a voz fria veio do seu lado direito. Ele
olhou naquela direção e não viu coisa alguma. Quando voltou a olhar para a
frente, o rosto negro e putrefato do vulto se materializou a centímetros do
seu. O homem se assustou, perdendo equilíbrio e rolando escada abaixo, até cair
estatelado no chão da sala. Ainda segurava a faca na mão. Rapidamente,
colocou-se de pé e disparou para a porta de entrada. As chaves. Tinha esquecido
as chaves no bolso da jaqueta, pendurada no cabideiro de seu quarto. Merda!
Correu a toda a velocidade de volta para o quarto,
tropeçando duas vezes na escada. Sentia a presença da entidade ficando cada vez
mais intensa e sufocante, como se estivesse fechando as mãos sobre sua alma.
Quando finalmente chegou ao cabideiro, enfiou a mão pelos bolsos da jaqueta e,
no momento em que fechou as mãos sobre o chaveiro, viu os fios de cabelo preto
caindo pelos ombros da jaqueta e os olhos vermelhos reluzindo na escuridão.
Tentou tirar a mão de dentro do bolso, mas não conseguiu. Alguma força
sobre-humana a mantinha lá dentro.
- Me larga, porra. - Gritou, golpeando inutilmente a
jaqueta com a faca. Então, sentiu dedos humanos se fecharem sobre o punho da
mão que segurava a faca. Sem que pudesse fazer qualquer coisa para se livrar
daquilo, seu braço foi levantado para cima e baixado violentamente sobre sua
própria barriga. A faca de caça penetrou em sua pele, rompendo a musculatura
abdominal e acertando algum órgão interno. A dor irradiou daquela região e ele
gritou o mais alto que pôde. Por que diabos escolhera um lugar tão afastado
para morar?
A força sobre-humana em suas duas mãos aliviou e ele
conseguiu se afastar do cabideiro, ainda segurando o punho da faca. Sabia que
não deveria puxar a lâmina antes de chegar a um hospital. No cabideiro, restava
apenas a jaqueta de couro, intacta.
Antes que pudesse tomar qualquer atitude, a mão invisível
se fechou novamente sobre seu punho e puxou o braço com força, retirando a faca
de sua barriga e fazendo com que uma cascata de sangue jorrasse do ferimento.
Levou a outra mão ao local, tentando estancar o sangue que escorria pelos
dedos. Desobedecendo sua própria vontade, a mão segurando a faca desceu
novamente, enterrando a lâmina no mesmo local. Dessa vez, ele não gritou, pois
faltou-lhe ar para produzir qualquer ruído. O golpe fez com que andasse para
trás. A mão levantou e golpeou o ferimento mais três vezes, fazendo com que se
afastasse cada vez mais e se chocasse contra o parapeito do mezanino. Suas
costas se curvaram e ele perdeu o equilíbrio, caindo de costas em cima da mesa
de vidro da sala, que se estilhaçou. A faca voou para o lado com o impacto e
ele ficou caído de costas. O sangue escorria cada vez mais do ferimento e,
rapidamente, seu corpo adquiria uma cor pálida. Com muito custo, virou-se de
barriga para baixo e começou a engatinhar. Então, a força invisível fez com que
parasse novamente. A mesma mão que segurava a faca foi levada até o ferimento,
ficando encharcada de sangue. A força fechou os quatro dedos da mão, deixando
somente o indicador estendido. Movimentou a mão, de forma que o indicador
rabiscasse um desenho no porcelanato. O grande pentagrama invertido, feito com
sangue, brilhou intensamente, iluminando todo o loft. O homem, exaurido, sentiu
sua consciência se apagar. Depois de alguns segundos, seu corpo sem vida
desabou sobre o pentagrama. A poça de sangue se espalhou para os lados e um
silêncio sepulcral tomou conta da noite.
O pentagrama brilhou ainda mais intensamente, fazendo com
que a luz penetrasse completamente no cadáver. Então, como se tivesse sido
reanimado, o corpo começou a se contrair violentamente. Os tremores se
propagaram por todo o corpo e a ferida do abdome cicatrizou. Depois de alguns
minutos, o corpo finalmente parou de se mexer e os olhos se abriram. A íris
esquerda estava completamente esbranquiçada, enquanto a direita mantinha a
tonalidade esverdeada natural. Vagarosamente, o homem se colocou de joelhos e
se levantou. Observou as próprias mãos e sorriu com satisfação. A voz fria e
sombria da entidade se projetou pela boca humana.
- "E erguerá seu templo sobre as ruínas da Igreja dos
homens"