O arpão perfurou a testa do animal, que rodopiou e caiu
estatelado no chão. O corpo foi tomado por tremores involuntários e o sangue
vermelho escuro escorreu pelo ferimento. As pupilas do animal se dilataram e os
movimentos corporais cessaram. O impacto no cérebro fora fatal.
- O que você fez? - Marcos largou a pistola de dardos e
correu até o corpo do animal. - Não, não, não e não. - Gritou, enquanto fazia
uma massagem cardíaca completamente inútil.
- O que eu fiz? Salvei a gente dessa coisa bizarra. Você
preza mais pela vida dele do que pela sua? - Lissandra estava sendo tomada por
uma irritação crescente. Se ainda tivesse um arpão, seria capaz de atirar na
testa do homem.
- Você não nos salvou. Você nos condenou, sua idiota. Não
faz ideia do que acabou de causar.
Como se estivesse aguardando o momento oportuno, o corpo do
animal se movimentou freneticamente e soltou um guincho tão agudo, que
Lissandra achou que seus ouvidos fossem explodir. O grito durou alguns
segundos e cessou. O animal permanecia morto.
- Que porra foi essa? - Lissandra gritou.
- Foi um chamado. - Marcos respondeu. - Pegue todos os
sinalizadores que puder. Tem uma mochila dentro desse armário de alumínio ao
seu lado. Use ela.
Por um momento, a mulher se esqueceu do ferimento em sua
perna, pegou a mochila e a encheu com os sinalizadores, que ficavam dentro dos armários.
- Peguei. O que você está fazendo? - Lissandra foi até
Marcos, que acabava de verificar o pente de uma pistola PT 58. Colocou o pente
de volta, puxou o cão para trás e entregou a arma para a mulher.
- Mire e atire. Cuidado! Está destravada. - ele disse,
virando-se para um dos armários e pegando uma submetralhadora 40 S&W.
- Eu preciso entender uma coisa. Quando eles morrem, fazem
esse barulho ensurdecedor para chamar os outros? - Lissandra perguntou.
- Quando são assassinados. - o homem respondeu. - Olha só, não
tenho tempo para explicar mais nada. Vamos sair daqui. Tem um compartimento de
carga extra abaixo dos contêineres. Se conseguirmos chegar lá, podemos aguardar
até de manhã.
Marcos correu até a porta da cabine e a puxou com força. O
vento manteve a porta imóvel, colada à parede. Lissandra seguiu-o para se
encontrar novamente com a tempestade.
- Me dá um sinalizador e acende um. Rápido. - o homem pediu
e Lissandra obedeceu.
Desceram os degraus da cabine e acenderam os
sinalizadores.
- Por aqui. - O homem levantou o sinalizador e começou a
correr. Lissandra levantou o braço e o seguiu. O vento havia diminuído um pouco
de intensidade, assim como as ondas estavam menores. A chuva caía com menor
velocidade e o impacto das gotas sobre o corpo passara a ser tolerável.
Não haviam percorrido metade do caminho, quando o pé de
Lissandra encontrou uma elevação metálica. Seu corpo tombou para frente,
fazendo com que estatelasse no chão. O sinalizador voou de sua mão.
- Merda! Marcos. - chamou, colocando-se de pé.
O ruído do vento abafou o som de sua voz e o rugir em
uníssono das criaturas, que pulavam da água para o cargueiro. Lissandra contou
dez cercando-a de todos os lados.
- MARCOS. - gritou com toda a força que podia, ao mesmo
tempo em que tentava alcançar o zíper da mochila para puxar mais um
sinalizador.
Uma das criaturas marinhas saltou, mas foi atingida pelas
balas da S&W no ar, desviando de seu percurso. Marcos chegou até a mulher e as
criaturas se afastaram da fonte luminosa.
- Pegue mais dois. - ordenou a ela.
Lissandra obedeceu, colocando a mochila à sua frente e
puxando mais dois sinalizadores. Entregou um deles aceso para Marcos e segurou
o outro à sua frente. Sentiu-se aterrorizada com o cerco que se fechava em
torno deles. Mais 15 criaturas se juntaram ao bando de uma só vez. O ruído de
suas respirações era amedrontador.
Uma das criaturas deu um passo na direção dos dois.
Assustada, Lissandra mirou a PT 58 e disparou. A bala atingiu o ombro direito
da criatura, que berrou furiosamente.
- Continua andando, porra. - ela gritou.
Marcos deixou a S&W pendurada em suas costas e abriu
caminho à frente, segurando dois sinalizadores.
Lissandra foi atrás do parceiro, segurando o sinalizador
com uma das mãos e atirando com a outra. Algumas balas cortavam o ar vazio e
acabavam se enterrando em contêineres ou afundando na água, dezenas de metros à
frente. Outras atingiam braços, pernas e barrigas, derrubando algumas criaturas
e atrasando o avanço do bando.
As 19 balas do pente da pistola acabaram rapidamente.
Lissandra deu um toque no ombro de Marcos.
- Acabaram minhas balas.
- Chegamos. - respondeu o Homem, abaixando-se e abrindo a
porta metálica no chão do navio. - Pula primeiro. - disse a ela.
Lissandra deixou o sinalizador no chão e pulou. Sentiu a
perna fisgar e apoiou-se na parede. Então, ouviu os estampidos da
submetralhadora e sentiu o coração acelerar.
- Marcos. - gritou. - Você está bem?
Os estampidos cessaram e Marcos pulou para o compartimento
segurando a tampa metálica por dentro, que se fechou acima dele.
- Agora preciso girar isso aqui. - ele disse, girando a
válvula da porta para a direita.
- E agora? Esperamos aqui? Eu não tenho certeza de que
estamos completamente seguros. - Lissandra pareceu desconfiada.
- Eu também não. Mas é tudo o que temos, por
enquanto.
- Por que eles sinalizam, quando são assassinados? Algo
relacionado com vingança? - perguntou a mulher.
- Não. Para falar a verdade, sinalizam para que os vivos
venham buscar seus gametas, antes que o corpo entre em decomposição. - Marcos
respondeu com naturalidade. - São uma espécie dedicada à sobrevivência. Se o
corpo sinaliza, significa que o indivíduo não morreu de alguma causa natural, como por
exemplo, uma doença genética, mas sim que a vida foi interrompida bruscamente
por um fator externo. A chance dos gametas serem mais saudáveis é muito
maior.
- Mas por que pegar os gametas? Não é como se eles pudessem
fazer inseminação artificial debaixo d'água. - Lissandra questionou.
- A reprodução deles é diferente. - Marcos respondeu. - São
ovíparos, mas acredito que a fecundação ocorra fora do corpo. Não sei como
funciona. Nunca vi pessoalmente.
Ela não perguntou mais nada. Apenas se deixou ser invadida
por certa comoção. Era admirável a luta das espécies para garantir a
sobrevivência. O valor da vida estava embutido DNA de cada criatura viva do
planeta Terra. Por esse sentimento é que lutava para continuar viva. Duas
espécies batalhavam pela sobrevivência e havia algo dramaticamente belo naquela
situação.
Quando os sinalizadores se apagaram, as criaturas se
concentraram em volta da porta do compartimento. Batiam com as mãos e com os
pés, como se quisessem abrir um buraco no navio. A cada pancada que davam no
lado externo da porta, o metal afundava um pouco do lado de dentro.
Depois de dez minutos, a porta já começava a se soltar dos trincos.
- Eu posso ser pessimista, mas acho que essa porta não vai
durar muito tempo. - Lissandra pontuou. - O que vamos fazer? - perguntou,
desesperada.
- Espere um minuto. Está ouvindo? - Marcos respondeu,
apontando para cima. Um sorriso se fez em seu rosto.
- O que foi? Ouvindo o que?
- Shhhh
E lá estava, o barulho quase abafado de um helicóptero
sobrevoando os arredores.
- Prepare os sinalizadores. - ele disse, colocando a mão em
um dos bolsos da jaqueta e retirando a granada de dentro.
- Ah meu Deus. - Lissandra colocou uma das mãos na testa.
- Tenha fé. Podemos ser salvos se fizermos isso. - Marcos
caminhou até a escotilha e girou a válvula. A pressão da porta aliviou e ele a
empurrou para cima, segurando um dos sinalizadores à sua frente. Os rostos
curiosos das criaturas se afastaram da luminosidade. - Agora. - Marcos jogou
o sinalizador para fora, tirou o pino da granada e a arremessou, fechando a
escotilha logo em seguida. A explosão arremessou a porta para longe e fez com
que a estrutura toda do navio tremesse. As criaturas foram lançadas para todos
os lados e partes de seus corpos foram decepadas. Aquela era a hora de sair.
Marcos pegou o sinalizador e acenou para cima.
- EI. ESTAMOS AQUI. - gritou o mais alto que podia.
Lissandra logo saiu do esconderijo e acendeu um sinalizador
em cada mão. Depois de alguns segundos, finalmente foram avistados. O
helicóptero começou a voar mais baixo e a escada foi arremessada.
Os dois correram a toda velocidade naquela
direção.
- Suba primeiro. - Marcos disse ao chegarem. Lissandra largou os
sinalizadores no chão, pulou na escada e subiu, sem olhar para baixo. O
helicóptero tentava manter-se estático, mas o vento ainda era o suficiente para
jogá-lo de um lado para o outro. A mulher lutava para não cair.
Quando ela estava na metade da escada, Marcos pulou
para alcançar o último degrau. Olhou para o lado direito e avistou uma das
criaturas penduradas no mastro de metal, a dez metros de distância. Tentou
subir o mais rápido possível, mas a criatura se lançou sobre ele, derrubando-o
de volta no navio.
- MARCOS. - gritou, Lissandra, enquanto o helicóptero se
afastava do navio. As criaturas circundaram os sinalizadores e atacaram o
homem, que gritava inutilmente por socorro. Dentro de alguns minutos, somente a
ossada de seu corpo permanecia como evidência de que ali houvera uma
pessoa.
- Eu sinto muito. - disse o piloto. - Você está a salvo. Tudo
vai ficar bem agora.
O copiloto virou para trás e fez um movimento rápido com a
mão. Lissandra sentiu a picada em sua coxa e puxou a perna no mesmo
momento.
- Você está louco? - perguntou, indignada. O copiloto nada
respondeu. Apenas virou-se para frente como se nada tivesse acontecido. Em
alguns minutos, Lissandra sentiu as forças se esvaindo de seu corpo e sua
consciência se apagou por completo.
Não sabia o que estava acontecendo. Sabia que estava nua,
deitada em alguma coisa gelada, mas estava impossibilidade de se movimentar.
Nem ao menos conseguia abrir os olhos. Ouviu os bipes familiares de monitores
cardíacos e sentiu pavor. Sua mente não conseguia elaborar raciocínios claros,
porque tudo era um grande borrão. Parecia que estava tão drogada a ponto de não
ter qualquer controle de seu corpo. As vozes que ouvia eram distantes e soavam
metálicas.
- Você tirou todo o tecido mamário? - perguntou uma das vozes
masculinas.
- Sim. Já coloquei os fragmentos nos potes de formol.
Estamos aguardando ela retornar da anestesia. - respondeu a voz feminina.
- Retornar? Você sabe que essa mulher é a única testemunha
do que estamos fazendo aqui, não é? Você realmente quer ter sua licença
cassada? - o outro homem pareceu sobressaltado. De quem estavam falando?
- Não pode estar sugerindo o que estou pensando. - a
misteriosa mulher respondeu.
- Aqui está. Faça agora. Sem perguntas. - disse o homem.
Lissandra queria saber o que estava acontecendo, mas seu
corpo não a ajudava.
- Desculpe-me por isso. - disse a voz da mulher, em tom de
misericórdia.
Então, Lissandra sentiu uma queimação percorrendo suas
veias até atingir o coração. Um imenso vazio se propagou daquela região e foi
desligando cada parte de seu corpo. Por último, sua consciência foi lançada à
escuridão eterna e estava terminado. Estava tudo terminado.
Um comentário:
Thi acho que este conto foi um dos melhores que já li! Ai que orgulho de você nego
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