sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Patrulha da Noite - Parte 4

03:00 - Eu geralmente ouço pessoas falando que as coisas acontecem por um motivo, mesmo que não saibamos qual é. Bom, para falar a verdade, eu duvido que essas pessoas já passaram por uma situação semelhante a essa. Tudo o que consigo pensar nesse momento é em como fui azarado de acabar em um lugar como esse. 
Explorando a gruta, notei que havia uma passagem estreita no paredão rochoso onde o riacho parecia parar de correr. Se eu tivesse problemas de claustrofobia, teria um surto psicótico, com certeza. A passagem era tão estreita, que minhas costas foram arranhadas pelas protuberâncias rochosas, enquanto eu tentava chegar a algum lugar. 
Andei espremido por vinte minutos até chegar ao fim do "corredor". A passagem dava acesso a uma pequena câmara de teto alto. Senti um arrepio ao mirar as inúmeras estalactites e imaginei que qualquer tremor poderia fazer com que elas caíssem e perfurassem todo o meu corpo. 
Vasculhei a pequena câmara com a lanterna e vi que, no alto de uma das paredes, havia uma abertura. Lancei o feixe de luz na fenda e notei que se tratava de outra passagem. Prendi a lanterna na calça, tomei um impulso e lancei-me para cima. Não consegui alcançar a abertura da primeira vez, nem das cinco vezes seguintes. Na sétima vez, minhas mãos tocaram alguma estrutura maciça e cilíndrica, como se fosse a alça de uma grande gaveta. Achei aquilo estranho, mas não hesitei em subir no pequeno túnel. 
Eu precisei engatinhar para percorrer o túnel, já que a altura não passava de um metro. Ainda assim, essa passagem era muito mais espaçosa do que a primeira. Pelo menos eu pude privar minha barriga e meu peito de ferimentos indesejados. Depois de alguns metros, senti o meu ombro latejar onde a bala havia me atingido de raspão e parei para descansar. Assim que a dor aliviou, prossegui.
O que se revelou no fim do túnel foi desesperador. Antes de analisar o visual do novo ambiente, senti o cheiro pútrido preencher minhas narinas e a vertigem que isso me causou. Ao contrário da câmara anterior, o túnel terminava na parte baixa da parede. 
A câmara era muito maior do que a outra. Para falar a verdade, era incrivelmente maior do que qualquer gruta que eu já tenha visitado. Mas não foi o tamanho que me chamou a atenção. Foram os inúmeros esqueletos espalhados por todo o lugar, compondo a imagem de um ossário gigantesco. Não existe qualquer ponto do chão em que se possa pisar sem esmagar um osso. Além dos esqueletos, alguns corpos em estado de putrefação estavam espalhados pela câmara. Sem esforço, era possível ouvir o barulho das larvas cavando caminho pela carne apodrecida. 
Encostei-me à parede e caminhei de lado, tentando não esmagar os ossos. A alguns metros de mim, o corpo de um guarda florestal jazia inerte. Ainda não havia entrado em estado de decomposição, mas não estava totalmente preservado. Aproximei-me dele e notei o ferimento circular em sua fonte esquerda. A pistola estava caída ao lado do corpo. Então, reconheci o homem. Era meu empregador, Abel, o homem responsável pelo recrutamento de novos guardas florestais. Aquilo me apavorou. 
Eu me abaixei lentamente e peguei a pistola Sig Sauer do chão. Alguma coisa me disse que eu deveria tatear o corpo do guarda em busca de qualquer coisa. Assim o fiz, retirando apenas o celular do bolso de sua jaqueta. Desbloqueei a tela e vi o aplicativo de gravação de voz ativo. O botão play tomava grande parte da tela. Antes de apertar o play, certifiquei-me de abaixar o volume. Então, a bizarra mensagem ecoou:

"Fazem 20 anos que estou nesse esquema. Não sei dizer ao certo o motivo de ter sido escolhido pela empresa, mas eu devia ter desconfiado. A começar pelo fato de não sermos vinculados à polícia, mas recebermos o aval da mesma para portar arma de fogo. No início, eu não suspeitava que algo do tipo pudesse existir, mas existe e é simplesmente aterrorizador.
Mas o que eu poderia ter feito? Eu morava na rua, largado à própria sorte, sobrevivendo de migalhas e esmolas. Nem ao menos sei de onde vim ou quem são meus pais. Desde que me entendo por gente pertenço às ruas. Ou melhor, pertencia. Veja, eu sempre fui honesto. Nunca roubei sequer um pão. Eu nunca aceitaria isso de forma consciente. Na verdade, nunca aceitei. 
Eu fui contratado no outono de 1994. Os três primeiros meses foram bastante tranquilos. A floresta era como outra qualquer e não havia nada em sua atmosfera que sugerisse algo monstruoso. 
Foi no inverno que o terror aconteceu. Na noite mais fria do ano, a criatura nos encontrou. Um a um, eu vi meus companheiros de trabalho serem destroçados pelos dentes e garras afiadas. A criatura teve a oportunidade de me matar, mas poupou a minha vida. Tudo o que ela fez comigo foi cravar as estranhas espículas de sua gigantesca língua em meu pescoço. Eu achei que tinha conseguido me livrar por conta própria do ataque, mas eu estava completamente enganado. 
Corri o mais rápido que pude, até chegar nesse lugar. Quando percebi que essa gruta era um grande cemitério, me dei conta de que estava tudo acabado para mim. Não havia qualquer chance de escapar do terror. Depois de algumas horas sem sinal da criatura, senti as feridas de meu pescoço arderem intensamente e um mal estar absurdo tomou conta de meu corpo. Minha mente apagou-se lentamente e reacendeu alguns segundos depois, como se eu tivesse entrado em algum sonho. Eu vi a bizarra criatura parada de frente para mim. Sua boca não se movimentava, mas as palavras que eu ouvia pertenciam a ela e não podiam ser mais claras.
- Alguém deve assumir o lugar do outro. Esse era o trato. Vocês trazem o meu alimento e eu não ataco a civilização de vocês. Vocês não mexem no meu habitat e eu não faço um massacre. E não adianta fugir. Não é como se você tivesse para onde correr. 
Eu o observei, estupefato. Não consegui responder coisa alguma. Apenas tentei compreender o que o monstro queria dizer com aquelas palavras. 
- Você sabe o que quero de você. Todo inverno, na noite mais fria. Esteja sempre preparado.
Então eu compreendi o que ele queria de mim. Verdade seja dita, como eu poderia ter recusado? Era como se eu tivesse que escolher entre a vida e a morte. No auge de meu desespero, não pensei nas consequências de minha escolha. Diariamente, peço ao Senhor que me perdoe por compactuar com uma criatura das trevas. 
No momento em que concordei, sua imagem se desfez de minha mente e eu voltei à realidade. Eram cinco horas da manhã, quando a criatura voltou para sua toca. Tive medo de que aquilo que eu acabara de presenciar não passasse de uma ilusão, causada por alguma toxina de sua saliva. A criatura se aproximou de mim e olhou-me com aqueles olhos terríveis. Depois de alguns minutos, virou as costas e foi deitar-se em uma pilha de carcaças. Seus olhos se fecharam e o corpo parou de se movimentar. 
Eu saí da gruta ao primeiro sinal da alvorada. Não precisei dizer coisa alguma sobre o que tinha acontecido ao meu chefe. Ele sabia o que se escondia naquela floresta. Ele compactuava com aquilo. Foi por isso que, depois daquela noite, ele me nomeou como chefe da equipe de seleção de novos funcionários.
Desde então, tenho contratado os sem-teto, os mendigos e andarilhos para fazerem parte da equipe de guardas florestais. Não é que os marginais sejam descartáveis, mas o fato de não possuírem família e serem completamente invisíveis para a sociedade evita investigações que possam levar até o monstro. E eu tenho certeza de que ele não gostaria disso.  Eu tenho que garantir que existam dez pessoas na floresta, durante a noite mais fria do inverno. Nunca sequer cogitei a possibilidade de não cumprir com meu trato. Sabe-se lá as consequências que isso traria para mim e para as outras pessoas.
Mas nem tudo de ruim veio desse encontro com o monstro. O meu interesse por ele foi tão grande, que eu me forcei a aprender a ler e escrever. Eu queria estudar as ciências. Queria saber se existia alguma espécie semelhante àquela criatura. Não demorei muito para perceber que eu não estava lidando com algo corriqueiro. O monstro não se enquadrava em qualquer gênero ou espécie. Para falar a verdade, não me parecia que se encaixasse como elemento da natureza. 
Então, direcionei meus estudos para a literatura fantasiosa. Estudei o folclore de diversos países para chegar a um nome que ressoa em minha cabeça desde então: Wendigo
Durante algum tempo, senti-me privilegiado por poder fazer parte de algo tão incrível. Eu era uma das únicas pessoas do mundo que sabia de um incrível segredo. Mas as coisas mudaram. Eu já não me sinto mais assim. Eu arquiteto massacres. Eu ofereço estabilidade, abrigo e uma vida digna às pessoas, quando na verdade estou lançando-as direto para a morte. Isso começou a pesar para mim.
Dessa vez não consegui recrutar andarilhos, ou mendigos, ou miseráveis. Parece-me que o número de marginais diminuiu consideravelmente nos últimos anos e fica cada vez mais difícil encontrar dez exemplares. No fim das contas, acabei escolhendo homens de baixa renda; homens que possuem uma família para sustentar; homens que, juntamente com suas esposas e filhos, tentam sobreviver à sociedade com determinação e força de vontade. Eu ferrei com tudo. Ferrei com famílias e ferrei com o absoluto sigilo que havia prometido. 
Eu não vejo como lidar com essas coisas mais. Não vejo sentido nisso que estou fazendo. Eu preciso dar um fim nisso tudo o quanto antes. Tudo isso se tornou insustentável para mim."

Eu estou com o celular em minha mão e não sei o que fazer. A criatura pode voltar a qualquer momento. Tenho que dar um jeito de sair daqui. Não posso aguardar pela morte, parado. Minha esposa e minha filha dependem de mim. 

Um comentário:

May disse...

Simplesmente sensacional! Estou indo ler a parte final...