Lissandra paralisou completamente,
quando ouviu o rosnado grave do animal. Os olhos esverdeados da criatura
brilharam no escuro, como se emitissem luz própria. O segundo rosnado tirou
Lissandra do próprio transe e a fez disparar para fora do contêiner.
Novamente, sentiu a violência com que as gotas de chuva se chocavam contra seu corpo e a imponência da ventania. A luz azulada iluminou parcialmente o cargueiro, no momento em que um raio atingiu um dos mastros. A faísca se dissipou no ar e a parte superior à região atingida desabou. Lissandra aproveitou o clarão para vasculhar rapidamente o cargueiro. Ela avistou a cabine do capitão, que ficava dez metros à sua esquerda, e começou a correr naquela direção. O vento a atingia do lado direito, facilitando um pouco o percurso.
Novamente, sentiu a violência com que as gotas de chuva se chocavam contra seu corpo e a imponência da ventania. A luz azulada iluminou parcialmente o cargueiro, no momento em que um raio atingiu um dos mastros. A faísca se dissipou no ar e a parte superior à região atingida desabou. Lissandra aproveitou o clarão para vasculhar rapidamente o cargueiro. Ela avistou a cabine do capitão, que ficava dez metros à sua esquerda, e começou a correr naquela direção. O vento a atingia do lado direito, facilitando um pouco o percurso.
A figura animalesca saiu do contêiner
em um pulo e caiu sobre os quatro membros. Calmamente, ficou de pé sobre as
pernas, que tinham a articulação do joelho voltada para trás, e endireitou a
coluna.. A cauda pontuda e repleta de escamas dançou de um lado para o outro no
ar. Assim como a cauda, todo o corpo do animal era coberto por escamas de cor
verde jade, que se mexiam cima e para baixo de minuto em minuto. Os dedos
curtos eram interligados por membranas de pele fina. As unhas eram cinzentas,
grossas e levemente afiadas. De modo geral, o corpo era franzino e parecia
fazer referência a um espécime intermediário entre humano e peixe, exceto pela
cabeça, que parecia completamente fora de harmonia com o restante do
corpo.
A boca era oval, com lábios tão finos
quanto um fio de cabelo. A gengiva negra projetava 16 dentes compridos e
afiados, que se concentravam na parte da frente da boca. O nariz se resumia a
três estreitas fendas acima do lábio superior. Os olhos eram verdes e
arredondados e pareciam incapazes de exprimir qualquer expressão que não fosse
a indiferença. Talvez fosse pela falta de sobrancelha e flexibilidade dos
músculos faciais. O rosto parecia ter sido congelado daquela forma.
Lissandra sabia que não havia
indiferença no rosnado da criatura, mas sim uma selvageria natural. Mesmo
assim, saber que se tratava de um comportamento animal não amenizava a
seriedade da situação. Era por isso que queria chegar na cabine o mais rápido
possível.
As pernas da criatura dobraram ainda
mais para trás e ela virou a cabeça para cima. Avaliou o grande mastro alguns
metros à frente e pulou. As palmas das mãos se grudaram ao metal frio, cinco
metros acima do chão. A criatura pegajosa escalou rapidamente todo o mastro,
como se aquilo fosse algo com que estivesse habituada. O vento e a chuva não
afetavam em nada sua movimentação.
Quando atingiu o topo do mastro, a criatura colocou os olhos em Lissandra. Em seguida, lançou-se sobre os cabos de aço que conectavam o mastro a outros dois, e se segurou com as mãos e com os pés. Rapidamente, caminhou até a metade do cabo e pulou para baixo.
Quando atingiu o topo do mastro, a criatura colocou os olhos em Lissandra. Em seguida, lançou-se sobre os cabos de aço que conectavam o mastro a outros dois, e se segurou com as mãos e com os pés. Rapidamente, caminhou até a metade do cabo e pulou para baixo.
Lissandra sentiu o choque violento,
antes de ser lançada ao chão. Alguma coisa havia caído sobre ela, mas não conseguia
distinguir o que era aquilo. Suas mãos tocaram a superfície úmida e espessa do
animal e ela sentiu um cheiro característico de peixe. Imediatamente,
movimentou os braços e as pernas com violência, tentando se livrar da coisa que
a mantinha no chão. Um dos chutes acertou o rosto da criatura que, em resposta,
enterrou as unhas na panturrilha da mulher. Ela gritou, ao mesmo tempo em que
sacudiu a perna para se livrar da criatura. As unhas enterraram ainda mais,
lacerando o músculo a cada movimento. Lissandra parou de mexer a perna, e a
criatura aproveitou o momento para abocanhar a carne tenra entre suas mãos. Uma
grande tira de pele foi arrancada junto com parte do músculo. O sangue escorreu
em protusão, formando uma grande poça vermelha que se diluiu na água da chuva.
Lissandra soltou um berro agudo e, com a outra perna, chutou a criatura com
toda a força que lhe restava. O animal cambaleou para trás, mas logo se
empertigou novamente, mastigando o que havia retirado da mulher.
Uma voz humana cortou a melodia
assustadora da tempestade.
- Use isso.
Lissandra viu a silhueta humana, alguns
metros à sua frente, fazendo um movimento com uma das mãos. O objeto caiu
suavemente no chão e rolou até encontrar a perna da mulher. Rapidamente, ela
tomou a lanterna na mão e acendeu, mirando o feixe de luz no rosto do estranho
animal. A criatura rosnou novamente, afastando-se da luz e levando as mãos à
frente do rosto.
A figura humana se aproximou e estendeu
a mão para Lissandra. Ela estendeu a mão de volta e se deixou ser colocada de
pé.
- Venha comigo. - O homem passou o
braço pela cintura dela. - Continue mirando a lanterna nele. Não pare de
mirar.
Ela obedeceu, girando um pouco a cabeça
para o lado esquerdo, para enxergar melhor o feixe da lanterna.
A criatura andou para a frente tateando
o ar, aparentemente sem enxergar. Quando voltou a abrir os olhos, a luz da
lanterna de Lissandra os encontrou e a criatura deu outro rosnado grave e
rouco. Começou a pular freneticamente, de um lado para o outro, como se estivesse
tendo uma crise de insanidade temporária.
Aqui, aqui. Chegamos. - disse o homem,
abrindo a portal de metal da cabine do capitão. Gentilmente, ele empurrou
Lissandra para dentro e trancou a porta quando entrou.
- Quem é você? - perguntou ela, apoiando-se
na parede e deslizando até o chão.
- Meu nome é Marcos. Marcos Dias. -
disse ele, abaixando o capuz da jaqueta. - E você é...
- Lissandra Medeiros. Onde está o resto
da tripulação? - ela massageou a perna no lugar da mordida. Sentia a
panturrilha latejar.
- Estão Mortos. Todos mortos. - o homem
respondeu, estendendo uma garrafa térmica para ela. - Beba. Deve estar com
sede.
Lissandra pegou o objeto com
desinteresse. Antes de levar a garrafa à boca, sentiu uma queimação subindo sua
perna.
- O que é isso? - perguntou,
desesperada e levando as mãos ao local da ferida. - Que porra é essa? - ela
gritou, enquanto a queimação subia pelo seu ventre. Largou a garrafa térmica e
gritou. Era como se estivessem passando um maçarico em sua pele. A queimação parou
de subir, quando atingiu o seio esquerdo e, foi neste lugar que se
intensificou. Lissandra teve a convicção de que estava tendo um ataque cardíaco
e que morreria dali uns minutos, tamanha era a dor que irradiava de seu peito.
A visão escureceu e ela sentiu um ânsia incontrolável. Levantou-se da parede,
mas logo caiu sobre os joelhos, enquanto era dominada por uma crise de
labirintite terrível. O jorro de vômito atingiu o chão da sala com força,
respigando para os lados. Então, Lissandra sentiu o corpo tombar para o lado e
sua consciência se apagou.
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