terça-feira, 14 de outubro de 2014

Abissal - Parte 3

Lissandra paralisou completamente, quando ouviu o rosnado grave do animal. Os olhos esverdeados da criatura brilharam no escuro, como se emitissem luz própria. O segundo rosnado tirou Lissandra do próprio transe e a fez disparar para fora do contêiner.
Novamente, sentiu a violência com que as gotas de chuva se chocavam contra seu corpo e a imponência da ventania. A luz azulada iluminou parcialmente o cargueiro, no momento em que um raio atingiu um dos mastros. A faísca se dissipou no ar e a parte superior à região atingida desabou. Lissandra aproveitou o clarão para vasculhar rapidamente o cargueiro. Ela avistou a cabine do capitão, que ficava dez metros à sua esquerda, e começou a correr naquela direção. O vento a atingia do lado direito, facilitando um pouco o percurso. 
A figura animalesca saiu do contêiner em um pulo e caiu sobre os quatro membros. Calmamente, ficou de pé sobre as pernas, que tinham a articulação do joelho voltada para trás, e endireitou a coluna.. A cauda pontuda e repleta de escamas dançou de um lado para o outro no ar. Assim como a cauda, todo o corpo do animal era coberto por escamas de cor verde jade, que se mexiam cima e para baixo de minuto em minuto. Os dedos curtos eram interligados por membranas de pele fina. As unhas eram cinzentas, grossas e levemente afiadas. De modo geral, o corpo era franzino e parecia fazer referência a um espécime intermediário entre humano e peixe, exceto pela cabeça, que parecia completamente fora de harmonia com o restante do corpo. 
A boca era oval, com lábios tão finos quanto um fio de cabelo. A gengiva negra projetava 16 dentes compridos e afiados, que se concentravam na parte da frente da boca. O nariz se resumia a três estreitas fendas acima do lábio superior. Os olhos eram verdes e arredondados e pareciam incapazes de exprimir qualquer expressão que não fosse a indiferença. Talvez fosse pela falta de sobrancelha e flexibilidade dos músculos faciais. O rosto parecia ter sido congelado daquela forma. 
Lissandra sabia que não havia indiferença no rosnado da criatura, mas sim uma selvageria natural. Mesmo assim, saber que se tratava de um comportamento animal não amenizava a seriedade da situação. Era por isso que queria chegar na cabine o mais rápido possível.
As pernas da criatura dobraram ainda mais para trás e ela virou a cabeça para cima. Avaliou o grande mastro alguns metros à frente e pulou. As palmas das mãos se grudaram ao metal frio, cinco metros acima do chão. A criatura pegajosa escalou rapidamente todo o mastro, como se aquilo fosse algo com que estivesse habituada. O vento e a chuva não afetavam em nada sua movimentação.
Quando atingiu o topo do mastro, a criatura colocou os olhos em Lissandra. Em seguida, lançou-se sobre os cabos de aço que conectavam o mastro a outros dois, e se segurou com as mãos e com os pés. Rapidamente, caminhou até a metade do cabo e pulou para baixo.
Lissandra sentiu o choque violento, antes de ser lançada ao chão. Alguma coisa havia caído sobre ela, mas não conseguia distinguir o que era aquilo. Suas mãos tocaram a superfície úmida e espessa do animal e ela sentiu um cheiro característico de peixe. Imediatamente, movimentou os braços e as pernas com violência, tentando se livrar da coisa que a mantinha no chão. Um dos chutes acertou o rosto da criatura que, em resposta, enterrou as unhas na panturrilha da mulher. Ela gritou, ao mesmo tempo em que sacudiu a perna para se livrar da criatura. As unhas enterraram ainda mais, lacerando o músculo a cada movimento. Lissandra parou de mexer a perna, e a criatura aproveitou o momento para abocanhar a carne tenra entre suas mãos. Uma grande tira de pele foi arrancada junto com parte do músculo. O sangue escorreu em protusão, formando uma grande poça vermelha que se diluiu na água da chuva. Lissandra soltou um berro agudo e, com a outra perna, chutou a criatura com toda a força que lhe restava. O animal cambaleou para trás, mas logo se empertigou novamente, mastigando o que havia retirado da mulher. 
Uma voz humana cortou a melodia assustadora da tempestade. 
- Use isso. 
Lissandra viu a silhueta humana, alguns metros à sua frente, fazendo um movimento com uma das mãos. O objeto caiu suavemente no chão e rolou até encontrar a perna da mulher. Rapidamente, ela tomou a lanterna na mão e acendeu, mirando o feixe de luz no rosto do estranho animal. A criatura rosnou novamente, afastando-se da luz e levando as mãos à frente do rosto. 
A figura humana se aproximou e estendeu a mão para Lissandra. Ela estendeu a mão de volta e se deixou ser colocada de pé. 
- Venha comigo. - O homem passou o braço pela cintura dela. - Continue mirando a lanterna nele. Não pare de mirar. 
Ela obedeceu, girando um pouco a cabeça para o lado esquerdo, para enxergar melhor o feixe da lanterna. 
A criatura andou para a frente tateando o ar, aparentemente sem enxergar. Quando voltou a abrir os olhos, a luz da lanterna de Lissandra os encontrou e a criatura deu outro rosnado grave e rouco. Começou a pular freneticamente, de um lado para o outro, como se estivesse tendo uma crise de insanidade temporária. 
Aqui, aqui. Chegamos. - disse o homem, abrindo a portal de metal da cabine do capitão. Gentilmente, ele empurrou Lissandra para dentro e trancou a porta quando entrou. 
- Quem é você? - perguntou ela, apoiando-se na parede e deslizando até o chão. 
- Meu nome é Marcos. Marcos Dias. - disse ele, abaixando o capuz da jaqueta. - E você é...
- Lissandra Medeiros. Onde está o resto da tripulação? - ela massageou a perna no lugar da mordida. Sentia a panturrilha latejar.
- Estão Mortos. Todos mortos. - o homem respondeu, estendendo uma garrafa térmica para ela. - Beba. Deve estar com sede. 
Lissandra pegou o objeto com desinteresse. Antes de levar a garrafa à boca, sentiu uma queimação subindo sua perna. 
- O que é isso? - perguntou, desesperada e levando as mãos ao local da ferida. - Que porra é essa? - ela gritou, enquanto a queimação subia pelo seu ventre. Largou a garrafa térmica e gritou. Era como se estivessem passando um maçarico em sua pele. A queimação parou de subir, quando atingiu o seio esquerdo e, foi neste lugar que se intensificou. Lissandra teve a convicção de que estava tendo um ataque cardíaco e que morreria dali uns minutos, tamanha era a dor que irradiava de seu peito. A visão escureceu e ela sentiu um ânsia incontrolável. Levantou-se da parede, mas logo caiu sobre os joelhos, enquanto era dominada por uma crise de labirintite terrível. O jorro de vômito atingiu o chão da sala com força, respigando para os lados. Então, Lissandra sentiu o corpo tombar para o lado e sua consciência se apagou. 

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