O cargueiro parecia estar completamente à deriva. Nem ao
menos apresentava resistência ao movimento da água. Apenas 20 contêineres ainda
restavam em cima da embarcação, de modo completamente desorganizado. A sigla
TRAMAB em cor branca se destacava na lateral do casco.
Lissandra ajustou a frequência do rádio e tentou se
comunicar com alguém da tripulação. Não houve resposta. Ela acompanhava o
cargueiro com o olhar fixo. Estava se aproximando cada vez mais.
Pegou o rádio novamente e tentou se comunicar dom o chefe:
- Andrei, está na escuta. Câmbio? - nenhuma resposta. -
Andrei, está na escuta? Câmbio. - silêncio absoluto.
- Merda. - ela murmurou, jogando o rádio para o lado.
Caminhou até a escadaria, mas viu o quanto a água havia subido. Voltou para a
janela de vidro e observou com atenção. O cargueiro estava a meros 20 metros de
distância. Ela entrou em pânico. Não havia a menor possibilidade de enfrentar o
mar violento. Certamente morreria afogada antes de sequer avistar a praia.
Quais eram as suas opções? Deveria ficar até ter condições de voltar para terra
firme. Sabia que era assim que funcionava.
Quando a embarcação estava a dez metros de distância,
Lissandra sentou-se, encostada na parede, e segurou as próprias pernas. Cada
segundo até o impacto foi sufocante.
A parte imersa do cargueiro atingiu os rochedos da pequena
ilha, diminuindo a velocidade e força do impacto da proa no farol. O tremor se
propagou por toda a estrutura com o choque da batida. Toda a parede que recebeu
o impacto começou a ruir. As pedras iam caindo uma a uma, fazendo com que o
resto da estrutura tombasse para o lado do defeito.
Lissandra tentou desesperadamente se agarrar a qualquer coisa, mas não conseguiu controlar o próprio corpo, que foi puxado violentamente pela gravidade. Soube que estava em queda livre, quando sentiu o característico frio na barriga. Levou as mãos ao rosto para se proteger do impacto com a água. O vidro da janela se despedaçou e minúsculos cacos penetraram em suas mãos e braços. Ignorando a ardência, ela tentou nadar para a superfície, mas uma das enormes pedras atingiu-lhe as costas, fazendo-a afundar ainda mais. Lissandra sentiu o ar sair de seus pulmões com a dor da pancada e, num reflexo infeliz, tentou respirar. A ardência se propagou por todo o rosto, quando a água salgada fez caminho pelas cavidades nasais. Ela nadou o mais rápido que podia em direção a superfície. Inspirou profundamente com a boca, assim que encontrou ar puro.
Lissandra tentou desesperadamente se agarrar a qualquer coisa, mas não conseguiu controlar o próprio corpo, que foi puxado violentamente pela gravidade. Soube que estava em queda livre, quando sentiu o característico frio na barriga. Levou as mãos ao rosto para se proteger do impacto com a água. O vidro da janela se despedaçou e minúsculos cacos penetraram em suas mãos e braços. Ignorando a ardência, ela tentou nadar para a superfície, mas uma das enormes pedras atingiu-lhe as costas, fazendo-a afundar ainda mais. Lissandra sentiu o ar sair de seus pulmões com a dor da pancada e, num reflexo infeliz, tentou respirar. A ardência se propagou por todo o rosto, quando a água salgada fez caminho pelas cavidades nasais. Ela nadou o mais rápido que podia em direção a superfície. Inspirou profundamente com a boca, assim que encontrou ar puro.
Tentou manter a calma, embora não houvesse muito o que ser
feito naquela situação. Sabia que era inútil resistir à força da correnteza,
sem ter algo a que se agarrar. A confusão visual e mental era tanta, que ela só
viu o cargueiro quando este estava a dois metros dela. A embarcação tinha se
movido ainda mais em direção à ilha e seu grande casco se prendera nas pedras.
Alguns cabos de aço pendiam das bordas do
cargueiro e afundavam na água. Lissandra não pensou duas vezes, antes de
agarrar um deles. Quando fechou as mãos, sentiu a dor lancinante nas palmas e
nos dedos. Mas ela tinha que fazer aquilo. Era a única opção, se quisesse se manter
viva até pensar em como sair da situação.
Levou o corpo um pouco para cima e sentiu os cacos
penetrarem ainda mais na carne. As pernas ainda não haviam saído da água. O
cabo balançava de um lado para o outro e era extremamente difícil manter-se imóvel.
Lançou-se mais uma vez; o grito de dor agudo desaparecendo na canção tenebrosa
do mar. Mais um movimento e as pernas estavam fora da água.
O vento violento fazia com que tivesse que se segurar com
força quase sobre-humana. Ela não podia continuar daquele jeito. Não chegaria
ao navio com as mãos repletas de cacos de vidro. Arriscou segurar-se no cabo
apenas com a mão direita. O corpo deslizou um pouco para baixbro, quando o cabo
se mexeu, mas ela conseguiu se manter presa. Levou a palma da mão esquerda à
boca e retirou caco por caco com os dentes. Não poderia ser impedida pela dor.
Trocou as mãos rapidamente e retirou os cacos da mão direita. Claro que a dor
ainda permanecia, mas ao menos não corria mais o risco de lesar alguma
inervação e perder o movimento dos músculos.
A natureza não estava sendo nem um pouco misericordiosa.
Durante a subida, Lissandra se chocou contra o casco do cargueiro inúmeras
vezes. Seu corpo todo doía por conta das pancadas, mas não era como se pudesse
parar. Estava lutando pela própria vida.
Quando finalmente agarrou a borda do cargueiro, lançou-se
rapidamente para dentro e deixou o corpo desabar de costas. A chuva atingia seu
rosto com violência, enquanto ela tentava recompor as energias. Com os olhos
fechados, tateou à própria volta à procura de qualquer estrutura em que pudesse
se apoiar. Sem sucesso, virou de bruços e levou um dos braços à frente dos
olhos. O campo de visão melhorou consideravelmente. Rastejou até um dos
contêineres, a três metros de distância, e fechou e segurou-se com força. Depois de bastante esforço, conseguiu se colocar de pé, contra a vontade da ventania. Se ao menos pudesse chegar até
a cabine do capitão!
Com cuidado, contornou todo o contêiner e sentiu as
armações metálicas de sua complicada fechadura. Antes de abri-lo, rezou para
que estivesse vazio, ou estaria em uma péssima situação, caso a mercadoria
despencasse sobre ela. Com pouca força, as trancas se abriram e revelaram o
vazio. Lissandra lançou-se imediatamente para dentro e, inutilmente, tentou
fechar as portas por dentro. O vento era mais poderoso do que seus
braços. Ao ver que aquela era uma batalha inútil, afastou-se das portas,
andando de costas, cada vez mais para o fundo do contêiner. Só parou de andar
quando se deparou com uma estrutura firme. Julgou que tinha chegado no fundo da estrutura , mas uma respiração ruidosa a fez mudar de ideia.
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