domingo, 12 de outubro de 2014

Abissal - Parte 2

O cargueiro parecia estar completamente à deriva. Nem ao menos apresentava resistência ao movimento da água. Apenas 20 contêineres ainda restavam em cima da embarcação, de modo completamente desorganizado. A sigla TRAMAB em cor branca se destacava na lateral do casco.
Lissandra ajustou a frequência do rádio e tentou se comunicar com alguém da tripulação. Não houve resposta. Ela acompanhava o cargueiro com o olhar fixo. Estava se aproximando cada vez mais. 
Pegou o rádio novamente e tentou se comunicar dom o chefe:
- Andrei, está na escuta. Câmbio? - nenhuma resposta. - Andrei, está na escuta? Câmbio. - silêncio absoluto. 
- Merda. - ela murmurou, jogando o rádio para o lado. Caminhou até a escadaria, mas viu o quanto a água havia subido. Voltou para a janela de vidro e observou com atenção. O cargueiro estava a meros 20 metros de distância. Ela entrou em pânico. Não havia a menor possibilidade de enfrentar o mar violento. Certamente morreria afogada antes de sequer avistar a praia. Quais eram as suas opções? Deveria ficar até ter condições de voltar para terra firme. Sabia que era assim que funcionava.
Quando a embarcação estava a dez metros de distância, Lissandra sentou-se, encostada na parede, e segurou as próprias pernas. Cada segundo até o impacto foi sufocante.
A parte imersa do cargueiro atingiu os rochedos da pequena ilha, diminuindo a velocidade e força do impacto da proa no farol. O tremor se propagou por toda a estrutura com o choque da batida. Toda a parede que recebeu o impacto começou a ruir. As pedras iam caindo uma a uma, fazendo com que o resto da estrutura tombasse para o lado do defeito.
Lissandra tentou desesperadamente se agarrar a qualquer coisa, mas não conseguiu controlar o próprio corpo, que foi puxado violentamente pela gravidade. Soube que estava em queda livre, quando sentiu o característico frio na barriga. Levou as mãos ao rosto para se proteger do impacto com a água. O vidro da janela se despedaçou e minúsculos cacos penetraram em suas mãos e braços. Ignorando a ardência, ela tentou nadar para a superfície, mas uma das enormes pedras atingiu-lhe as costas, fazendo-a afundar ainda mais. Lissandra sentiu o ar sair de seus pulmões com a dor da pancada e, num reflexo infeliz, tentou respirar. A ardência se propagou por todo o rosto, quando a água salgada fez caminho pelas cavidades nasais. Ela nadou o mais rápido que podia em direção a superfície. Inspirou profundamente com a boca, assim que encontrou ar puro. 
Tentou manter a calma, embora não houvesse muito o que ser feito naquela situação. Sabia que era inútil resistir à força da correnteza, sem ter algo a que se agarrar. A confusão visual e mental era tanta, que ela só viu o cargueiro quando este estava a dois metros dela. A embarcação tinha se movido ainda mais em direção à ilha e seu grande casco se prendera nas pedras. 
Alguns cabos de aço pendiam das bordas do cargueiro e afundavam na água. Lissandra não pensou duas vezes, antes de agarrar um deles. Quando fechou as mãos, sentiu a dor lancinante nas palmas e nos dedos. Mas ela tinha que fazer aquilo. Era a única opção, se quisesse se manter viva até pensar em como sair da situação. 
Levou o corpo um pouco para cima e sentiu os cacos penetrarem ainda mais na carne. As pernas ainda não haviam saído da água. O cabo balançava de um lado para o outro e era extremamente difícil manter-se imóvel. Lançou-se mais uma vez; o grito de dor agudo desaparecendo na canção tenebrosa do mar. Mais um movimento e as pernas estavam fora da água. 
O vento violento fazia com que tivesse que se segurar com força quase sobre-humana. Ela não podia continuar daquele jeito. Não chegaria ao navio com as mãos repletas de cacos de vidro. Arriscou segurar-se no cabo apenas com a mão direita. O corpo deslizou um pouco para baixbro, quando o cabo se mexeu, mas ela conseguiu se manter presa. Levou a palma da mão esquerda à boca e retirou caco por caco com os dentes. Não poderia ser impedida pela dor. Trocou as mãos rapidamente e retirou os cacos da mão direita. Claro que a dor ainda permanecia, mas ao menos não corria mais o risco de lesar alguma inervação e perder o movimento dos músculos. 
A natureza não estava sendo nem um pouco misericordiosa. Durante a subida, Lissandra se chocou contra o casco do cargueiro inúmeras vezes. Seu corpo todo doía por conta das pancadas, mas não era como se pudesse parar. Estava lutando pela própria vida. 
Quando finalmente agarrou a borda do cargueiro, lançou-se rapidamente para dentro e deixou o corpo desabar de costas. A chuva atingia seu rosto com violência, enquanto ela tentava recompor as energias. Com os olhos fechados, tateou à própria volta à procura de qualquer estrutura em que pudesse se apoiar. Sem sucesso, virou de bruços e levou um dos braços à frente dos olhos. O campo de visão melhorou consideravelmente. Rastejou até um dos contêineres, a três metros de distância, e fechou e segurou-se com força. Depois de bastante esforço, conseguiu se colocar de pé, contra a vontade da ventania. Se ao menos pudesse chegar até a cabine do capitão!
Com cuidado, contornou todo o contêiner e sentiu as armações metálicas de sua complicada fechadura. Antes de abri-lo, rezou para que estivesse vazio, ou estaria em uma péssima situação, caso a mercadoria despencasse sobre ela. Com pouca força, as trancas se abriram e revelaram o vazio. Lissandra lançou-se imediatamente para dentro e, inutilmente, tentou fechar as portas por dentro. O vento era mais poderoso do que seus braços. Ao ver que aquela era uma batalha inútil, afastou-se das portas, andando de costas, cada vez mais para o fundo do contêiner. Só parou de andar quando se deparou com uma estrutura firme. Julgou que tinha chegado no fundo da estrutura , mas uma respiração ruidosa a fez mudar de ideia. 


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