quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A Patrulha da Noite - Parte 2


22:30 - Ainda não há qualquer sinal de movimento do lado de fora. Eu apaguei todas as luzes da torre e estou usando apenas a luz do celular para enxergar o caderno. O bom é que recebo um sinal satisfatório de minha operadora e isso me deixa tranquilo, de alguma forma. Estou arrependido de não ter comprado um smartphone até hoje. Pelo menos estaria passando o tempo e tentando controlar meu nervosismo com aqueles inúmeros jogos. 
Talvez eu deva descer. Estive aqui pensando e decidi que o vulto só podia ser um animal. Acho que meu nervosismo acabou deturpando a situação. Estou fazendo uma novela em cima de algo banal. Mas por que os outros guardas não me respondem? Talvez estejam todos reunidos em algum ponto da floresta bebendo cerveja e conversando sobre esportes, sexo e quaisquer outros assuntos desinteressantes. Não seria a primeira vez. Confesso que não me sinto confortável em meio aos meus companheiros, mas me imaginar junto ao grupo me traz um tremendo alívio. 
Acho que vou dar um pulinho na torre mais próxima, só por precaução. Consigo enxergar as luzes acesas daqui. Tentei usar o binóculos para ver se há movimento lá dentro, mas a distância é muito grande. De qualquer forma, vou levar você comigo para onde for. Não sei porque estou falando com um caderno como se fosse uma pessoa. Acabo de perceber que estou bastante solitário.

22:40 - Eu sei que minha intenção era descer, mas estou fazendo as coisas com calma. Pelo menos consegui destrancar e abrir a porta sem ter um ataque cardíaco. Estou olhando para a escadaria e sentindo um calafrio percorrer todo o meu corpo. Ainda não há qualquer ruído, mas é exatamente isso o que me incomoda. Vou descer a torre no escuro. Acender as luzes seria pedir para ser encontrado por qualquer predador que esteja lá fora. Aí vou eu. Seja o que Deus quiser. 

23:20 - Finalmente cheguei até a torre mais próxima. Demorei dez minutos para descer as escadas de minha torre, porque o medo ainda me consumia. Quando pisei em terra firme, tratei de correr o mais rápido que pude até aqui. Dessa vez não vi qualquer vulto seguindo o mesmo trajeto que eu, mas senti a presença. Eu estou sendo observado, não importa para onde corra. 
A torre de Sandro está uma bagunça. Há latas de cerveja espalhadas por todos os cantos e um charuto inacabado em cima da mesa. Uma das janelas foi estilhaçada e há cacos de vidro por todo o lugar. O que será que aconteceu por aqui? 
Apaguei as luzes daqui também. O rádio de Sandro permanece intocado em cima da mesa. Estou tentando manter a calma, mas tudo leva a crer que alguém ou algo quebrou essa janela. Talvez o Sandro tenha saído para encontrar o autor da peripécia. É. Provavelmente foi isso que aconteceu. 
O que será que faço em seguida? Acho que estaria me arriscando demais se descesse novamente. Estou parecendo uma criança medrosa, eu sei. Mas não consigo me livrar dessa sensação incômoda de que sou uma presa. E tenho a impressão de que o predador está brincando, antes de atacar. Será que a adrenalina deixa a carne mais saborosa? O que estou escrevendo? Quanto absurdo!
Vou esperar por Sandro aqui. Provavelmente ele deve voltar dentro de algum tempo. 

00:00 - Acabei cochilando durante meia hora. Acho que minha adrenalina abaixou e deixou que o cansaço me tomasse por completo. Percebi que, agora, estou bastante sonolento, como se, de alguma forma, minhas energias tivessem se esgotado. Geralmente não me sinto assim durante meu turno, mas hoje é um dia fora do comum. Seria ótimo tomar uma xícara de café. Tenho todas as coisas para preparar, mas fui idiota o suficiente para deixá-las no armário de minha torre. Seria loucura voltar lá para buscá-las.

00:25 - Até agora, nenhum sinal de Sandro ou de qualquer um dos rapazes. No entanto, eu não sinto mais a presença. Talvez ela tenha se cansado de brincar e optou por ir embora. 
O silêncio absoluto deu lugar a um vento gelado. A temperatura está caindo rapidamente e eu esqueci minha jaqueta espessa em minha torre. Merda! Já vasculhei o armário de Sandro, mas não há nada além de armas. Aliás, acho que vou levar uma das escopetas comigo. Já me sinto mais seguro. 
Vou voltar para...

Um comentário:

Daniel disse...

Legal, Alga! Bacana você retomar seus contos.

Meu irmão Samuel é autor da história em quadrinhos Eventos Intrigantes da Era da Ferrugem (www.eradaferrugem.com.br), uma história de suspense e mistério. Eu estou colaborando com contos que complementam a história principal da HQ.

Acho que você vai gostar

Um abraço!

Daniel (Reco)