domingo, 12 de outubro de 2014

Abissal - Parte 1

O grande farol exibia sua imponente estrutura de pedra a dois quilômetros da praia da Pompéia, em Santos. Erguia-se de uma pequena porção de terra, que permanecia estática com o rebentar das grandes ondas. 
O céu, pouco a pouco, adquiria a tonalidade cinzenta dos dias chuvosos. Os ventos de 20 km/h balançavam as vistosas palmeiras, que embelezavam a orla marítima. Os habitantes do bairro iam e vinham, munidos de seus guarda-chuvas, levando a sério a previsão do tempo para aquele sábado incomum. Os noticiários haviam levantado a possibilidade de uma forte tempestade, com ventos de até 80 km/h, atingir toda a baixada santista na parte da noite. Alguns habitantes estavam apavorados e não podiam deixar de imaginar a presença de ondas gigantescas engolfando toda e qualquer estrutura da cidade. 
Claro que aquilo era um exagero, mas era justificável que pessoas de todo o mundo ficassem apavoradas com qualquer manifestação marítima, após o grande incidente do Tsunami no sudeste asiático. 
A serra do mar estava congestionada no sentido Santos - São Paulo. Muitas famílias haviam se apavorado com a tempestade ameaçadora e resolveram buscar refúgio nas cidades do ABC Paulista. 
Estava prevista a chegada de cinco navios cargueiros no Porto de Santos ao longo do dia. Um péssimo dia para navegarem na Baixada Santista, sem dúvida. 
Lissandra havia sido escalada para cuidar do funcionamento do farol naquele dia. Em dias de agitação marítima e baixa visibilidade, o farol devia estar em perfeito estado, para garantir que as embarcações se localizassem em relação ao Porto.
Lissandra era a única mulher da equipe responsável pela manutenção e comunicação do farol da Praia da Pompéia. Obviamente, isso gerava situações desconfortáveis com os colegas de trabalho e com as tripulações dos navios. Ela era constante alvo de flertes e piadas sobre suas habilidades demasiadamente femininas, ainda que não devesse em nada para o trabalho de seus parceiros boçais. Lissandra amava o que fazia e, por isso, o fazia com excelência. O contato constante e íntimo com o mar lhe conferia uma paz de espírito indescritível. Não havia nada que lhe proporcionasse mais prazer do que o ruído das ondas se quebrando nos rochedos e o cheiro do sal marítimo que se levantava das espumas. A agitação do mar era diretamente proporcional ao seu bem estar. 
Às 18 horas, Lissandra estava sentada na cabine de comunicação, no topo do farol. Observava as gotículas da chuva fazendo caminhos sinuosos na janela de vidro à sua frente. O céu cinza-escuro enviava a mensagem de que algo poderoso estava para chegar. 
O ruído das caixas de som a fez dar um pulo na cadeira. 
- Lissandra, como estão as coisas por aí? Câmbio. - a voz sobressaltada de seu chefe ecoou por toda a torre. Antes de responder, ela levou a mão ao botão do volume e girou para esquerda.
- A visibilidade diminuiu bastante. O farol está funcionando normalmente. Até agora nenhum sinal da embarcação. Câmbio. - respondeu.
- Fique atenta. As coisas vão piorar bastante daqui algumas horas. Deus ajude a tripulação. Câmbio, desligo.
Lissandra não respondeu de volta, mas estava bastante preocupada com a única das cinco embarcações que ainda não havia atracado no porto. Ainda que fosse apaixonada pelo oceano, sabia que nunca queria estar em alto no mar no meio de uma tempestade marítima. Por um momento, colocou-se no lugar dos homens da embarcação e sentiu o desespero dessa ideia. Que azarados!

Por mais tedioso que fosse o trabalho no farol, Lissandra sempre arrumava uma maneira de passar o tempo da melhor maneira possível. Seguia um ritual clássico: durante as duas primeiras horas, observava, hipnotizada, as ondas rebentando nos rochedos e lançando a espuma branca para todos os lados. Nas horas seguintes, fazia palavras cruzadas e sudoku. Vez ou outra, revivia o antigo Game Boy Color, que conservava em perfeito estado, para jogar clássicos como Pitfall e Turok. Divertia-se com os portáteis antigos. Não era fã do realismo dos jogos atuais. Talvez por puro saudosismo e nostalgia. 
Mas, naquele dia, ela sabia, em seu inconsciente, que alguma coisa diferente estava para acontecer. A manifestação física disso era um vazio inexplicável dentro do peito. 
Foi às 22 horas que a chuva começou a se intensificar. Os pingos grossos tamborilavam no vidro, reproduzindo a melodia selvagem da natureza. O vento forte produzia uma leve vibração nas pedras sobrepostas que compunham o farol, dando a impressão de que a estrutura tinha vida própria. Lissandra soube, naquele momento, que não deveria estar ali. Não fazia parte daquele espetáculo.
Às 23 horas, os ventos haviam atingido a velocidade máxima. A maré estava tão alta, que o farol já havia sido preenchido por uma coluna de água de cinco metros, tampando boa parte da escadaria em espiral. A pequena porção de terra, que servia de sustentação para o farol, havia desaparecido completamente. 
Lissandra estava acostumada com situações em que o mar se mostrava revolto, mas aquilo era algo novo. O problema era que estava completamente ilhada e não havia qualquer opção, a não ser aguardar o desfecho da tempestade. Olhava ansiosa para o horizonte, acompanhando o feixe luminoso do farol. Então, avistou a grande figura negra, que balançava no ritmo frenético das ondas e era conduzida em direção à praia. 

Um comentário:

May disse...

Se o primeiro conto ja foi bom, esse esta com cara de ser duas vezes melhor! posta logooooo a continuação!