O grande farol exibia sua imponente estrutura de pedra a
dois quilômetros da praia da Pompéia, em Santos. Erguia-se de uma pequena
porção de terra, que permanecia estática com o rebentar das grandes ondas.
O céu, pouco a pouco, adquiria a tonalidade cinzenta dos
dias chuvosos. Os ventos de 20 km/h balançavam as vistosas palmeiras, que
embelezavam a orla marítima. Os habitantes do bairro iam e vinham, munidos de
seus guarda-chuvas, levando a sério a previsão do tempo para aquele sábado
incomum. Os noticiários haviam levantado a possibilidade de uma forte tempestade,
com ventos de até 80 km/h, atingir toda a baixada santista na parte da noite.
Alguns habitantes estavam apavorados e não podiam deixar de imaginar a presença
de ondas gigantescas engolfando toda e qualquer estrutura da cidade.
Claro que aquilo era um exagero, mas era justificável que
pessoas de todo o mundo ficassem apavoradas com qualquer manifestação marítima, após o grande incidente do Tsunami no sudeste asiático.
A serra do mar estava congestionada no sentido Santos - São
Paulo. Muitas famílias haviam se apavorado com a tempestade ameaçadora e resolveram buscar
refúgio nas cidades do ABC Paulista.
Estava prevista a chegada de cinco navios cargueiros no
Porto de Santos ao longo do dia. Um péssimo dia para navegarem na Baixada Santista, sem dúvida.
Lissandra havia sido escalada para cuidar do funcionamento
do farol naquele dia. Em dias de agitação marítima e baixa visibilidade, o
farol devia estar em perfeito estado, para garantir que as embarcações se
localizassem em relação ao Porto.
Lissandra era a única mulher da equipe responsável pela
manutenção e comunicação do farol da Praia da Pompéia. Obviamente, isso gerava
situações desconfortáveis com os colegas de trabalho e com as tripulações dos
navios. Ela era constante alvo de flertes e piadas sobre suas habilidades
demasiadamente femininas, ainda que não devesse em nada para o trabalho de seus
parceiros boçais. Lissandra amava o que fazia e, por isso, o fazia com excelência. O
contato constante e íntimo com o mar lhe conferia uma paz de espírito
indescritível. Não havia nada que lhe proporcionasse mais prazer do que o ruído
das ondas se quebrando nos rochedos e o cheiro do sal marítimo que se levantava das espumas. A agitação do mar
era diretamente proporcional ao seu bem estar.
Às 18 horas, Lissandra estava sentada na cabine de comunicação, no
topo do farol. Observava as gotículas da chuva fazendo caminhos sinuosos na
janela de vidro à sua frente. O céu cinza-escuro enviava a mensagem de que algo
poderoso estava para chegar.
O ruído das caixas de som a fez dar um pulo na
cadeira.
- Lissandra, como estão as coisas por aí? Câmbio. - a voz
sobressaltada de seu chefe ecoou por toda a torre. Antes de responder, ela
levou a mão ao botão do volume e girou para esquerda.
- A visibilidade diminuiu bastante. O farol está
funcionando normalmente. Até agora nenhum sinal da embarcação. Câmbio. -
respondeu.
- Fique atenta. As coisas vão piorar bastante daqui algumas
horas. Deus ajude a tripulação. Câmbio, desligo.
Lissandra não respondeu de volta, mas estava bastante
preocupada com a única das cinco embarcações que ainda não havia atracado no
porto. Ainda que fosse apaixonada pelo oceano, sabia que nunca queria estar em
alto no mar no meio de uma tempestade marítima. Por um momento, colocou-se no
lugar dos homens da embarcação e sentiu o desespero dessa ideia. Que azarados!
Por mais tedioso que fosse o trabalho no farol, Lissandra
sempre arrumava uma maneira de passar o tempo da melhor maneira possível.
Seguia um ritual clássico: durante as duas primeiras horas, observava, hipnotizada, as ondas rebentando nos rochedos e lançando a
espuma branca para todos os lados. Nas horas seguintes, fazia palavras cruzadas
e sudoku. Vez ou outra, revivia o antigo Game Boy Color, que conservava em
perfeito estado, para jogar clássicos como Pitfall e Turok. Divertia-se com os
portáteis antigos. Não era fã do realismo dos jogos atuais. Talvez por puro
saudosismo e nostalgia.
Mas, naquele dia, ela sabia, em seu inconsciente, que alguma coisa
diferente estava para acontecer. A manifestação física disso era
um vazio inexplicável dentro do peito.
Foi às 22 horas que a chuva começou a se intensificar. Os
pingos grossos tamborilavam no vidro, reproduzindo a melodia selvagem da
natureza. O vento forte produzia uma leve vibração nas pedras sobrepostas que
compunham o farol, dando a impressão de que a estrutura tinha vida própria.
Lissandra soube, naquele momento, que não deveria estar ali. Não fazia parte
daquele espetáculo.
Às 23 horas, os ventos haviam atingido a velocidade máxima.
A maré estava tão alta, que o farol já havia sido preenchido por uma coluna de
água de cinco metros, tampando boa parte da escadaria em espiral. A pequena porção
de terra, que servia de sustentação para o farol, havia desaparecido
completamente.
Lissandra estava acostumada com situações em que o mar se
mostrava revolto, mas aquilo era algo novo. O problema era que estava
completamente ilhada e não havia qualquer opção, a não ser aguardar o desfecho
da tempestade. Olhava ansiosa para o horizonte, acompanhando o feixe luminoso
do farol. Então, avistou a grande figura negra, que balançava no ritmo
frenético das ondas e era conduzida em direção à praia.
Um comentário:
Se o primeiro conto ja foi bom, esse esta com cara de ser duas vezes melhor! posta logooooo a continuação!
Postar um comentário