terça-feira, 14 de outubro de 2014

Abissal - Parte 4

Quando Lissandra voltou a si, notou que a ardência havia sumido de seu peito. A visão voltou ao normal e ela respirou fundo. 
- Está tudo bem? - o homem lhe perguntou, colocando uma toalha molhada em sua testa. 
Ela tirou a cabeça e arrastou-se para trás, olhando para Marcos com uma expressão assustada.
- Ei, calma aí. Eu sou o Marcos. Acabamos de nos conhecer. Lembra? - ele disse, estendendo a mão na direção dela. A imagem dos minutos anteriores voltou à mente da mulher e ela se acalmou. 
- Meu Deus. Achei que eu já estivesse morta. O que aconteceu comigo? - ela passou as mãos pelo próprio corpo. 
-  Você foi curada. - ele disse, calmamente. - De seu câncer. 
Lissandra permaneceu alguns segundos em silêncio. Estava tentando descobrir se aquela era alguma brincadeira. 
- Como é? - perguntou, tentando se levantar. Sentiu uma fisgada na perna ferida e voltou a se sentar. - Merda! Tinha me esquecido disso aqui. 
- Espere um minuto. - Marcos disse, caminhando até o painel do controle digital do cargueiro. Apertou quatro botões, acendendo os quatro holofotes que iluminavam os contêineres. - Pronto. - ele disse, voltando para junto de Lissandra e estendendo novamente a mão para ela. - Venha, ajudo você a levantar. 
A mulher achou estranho o excesso de gentileza, mas aceitou o apoio.
- Ouça. - ele disse, apontando para a orelha com o indicador. Os gritos agonizantes da criatura cortaram o barulho da tempestade. 
- Que porra é aquela? O que está acontecendo aqui? - Lissandra estava cada vez mais desesperada. 
- Aquilo é uma espécie animal única. Especial, sem sobra de dúvida. - ele respondeu, com olhos de satisfação. 
- Especial? Ele arrancou um pedaço da minha perna. Como assim, especial? - Lissandra quase empurrou o homem para longe, mas conteve-se. Precisava do apoio que ele oferecia.
- Você está sendo negativa. Se ele não tivesse mordido sua perna, você não teria sido curada de seu câncer de mama. 
- Mas de que merda você está falando, cara? - ela se irritou, desvencilhando-se do braço de Marcos e dando alguns passos para trás. 
- Você quer me dizer que não sabia que estava doente? - a expressão de extrema satisfação tomou o rosto do homem, quando Lissandra respondeu negativamente com a cabeça. - Fascinante. Simplesmente fascinante. - ele disse. 
- Você vai me explicar o que está acontecendo aqui ou não? 
- Bom. - ele começou. - não sei como explicar isso sem uma má interpretação. O que estávamos carregando neste navio era uma esperança para a humanidade. 
"Há cinco anos, um grupo de pescadores profissionais navegava pelo mar de Recife, como costumava fazer habitualmente. Passaram uma semana em alto mar e, na última noite, enfrentaram uma tempestade marítima violenta. O único sobrevivente relatou que a tripulação havia sido atacada por uma criatura completamente diferente de todas que ele já tinha visto. Disse O animal surgiu da água e, supostamente, estava à procura de alimento, pois não hesitou em atacar cada um dos marinheiros, sempre levando consigo pedaços de carne humana. O sobrevivente relatou que também foi atacado pela criatura no ombro e mostrou a cicatriz. Disse que, havia alguns meses, vinha lutando contra o câncer de próstata e que, depois daquela noite, ele foi completamente curado. Ele conseguiu escapar em um bote salva-vidas, pois fora o único a descobrir a vulnerabilidade da criatura frente a qualquer fonte de luz. Também disse que antes de ser curado, sentiu uma queimação se propagar da ferida no ombro até a região da próstata, onde a terrível dor se instalou. Depois de vários exames, os médicos confirmaram que ele estava completamente curado da doença
A maioria dos médicos permaneceu cética ao depoimento do homem e o relatório médico foi preenchido alegando que o câncer fora eliminado por cura espontânea. Uma pequena parte do corpo médico do hospital ficou intrigada com os relatos do pescador. Sem que a comunidade científica soubesse, esse grupo de médicos uniu-se a militares aposentados da marinha brasileira e alguns farmacêuticos e se lançou em inúmeras expedições nas águas do litoral nordestino à procura da misteriosa criatura. Sempre levavam drogas tranquilizadoras potentes e diversos tipos de armas, cedidas pelos ex-membros da marinha.
Duas vezes ao ano, o grupo navegava por 15 dias em alto mar, esperando qualquer contato com o animal. Foi só na décima expedição, há cinco dias, que finalmente encontraram não um, mas dois animais., durante uma noite chuvosa. Eles foram capturados com dardos tranquilizantes, pois precisavam permanecer vivos para que as pesquisas fossem realizadas. 
Ao nos aproximarmos de Santos e da tempestade, os animais despertaram da sedação e caíram sobre a tripulação. Ninguém queria matá-los, pois todos prezávamos pela pesquisa. Isso fez com que alguns fossem mortos brutalmente e outros se lançassem ao mar revolto em desespero. Eu fui o único que sobrou de pé nessa expedição. Já era tarde, quando me lembrei da fraqueza deles por luz, mas pelo menos consegui prendê-los em contêineres. Estávamos conduzindo os espécimes para o porto. De lá,  seriam levados até o laboratório de biologia molecular da Universidade de São Paulo, onde começaria a fase de testes."
Lissandra o encarou, mal acreditando no que acabara de ouvir.
- Vocês estavam levando essas criaturas ao encontro de humanos? - perguntou, indignada.
- Por um propósito maior, sim. - Marcos respondeu. 
- E o que você é? Um dos médicos ou um dos militares? 
- Nenhum dos dois. Sou um dos farmacêuticos. Eu... - antes de completar a frase, Marcos viu, pelas janelas da cabine, um dos holofotes se apagando. Depois outro, e mais outro. Ele foi até o painel de controle da cabine e pegou um arpão acoplado ao disparador, em cima da escrivaninha. Entregou-o na mão de Lissandra e puxou uma pistola de dardos de um coldre improvisado. 
- Não atire na cabeça. - avisou à mulher.
- Você está brincando que ainda quer essa coisa viva! - Lissandra respondeu. Marcos não teve tempo de rebater antes de um dos vidros da janela se estilhaçar e revelar a figura da criatura marítima. Lissandra apontou o arpão.
- Fique calma. - advertiu Marcos. - Não atire na cabeça. Pelo amor de Deus, não atire na cabeça. Precisamos dele vivo. 
- O inferno que precisamos. - a mulher respondeu, apertando o gatilho. 

Um comentário:

May disse...

Querooooooooo maisss!
To amando esse conto