sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Patrulha da Noite - Parte 5

3:30 - Eu guardei o celular de Abel no bolso e vasculhei a grande câmara à procura de alguma outra saída. O teto era tão alto, que eu quase não podia enxergar seu limite. Ainda não encontrei outra maneira de sair daqui senão pela qual entrei. Mas a câmara é grande demais. Talvez exista alguma outra fresta que tenha me passado despercebida, mas estou lutando contra o tempo. Isso é o covil da criatura e, mais ou cedo ou mais tarde, ela retornará para cá. 
Já acostumei com o cheiro da cadaverina. Não o sinto mais com a mesma intensidade. Eu estive pensando em algo que ouvi no depoimento de meu "chefe". O pescoço dele também foi perfurado pela língua da criatura. Será que é uma forma dela criar uma conexão mental com alguém? Será que eu sou o próximo responsável por manter o acordo entre os humanos e o monstro? Não. Acho que não pode ser isso. A criatura me largou, porque alguém atirou em seu olho. Eu me pergunto se ela teria me soltado, caso ninguém tivesse intervindo por mim. 
Estou ficando desesperado com a imensidão desse lugar. Qualquer ruído baixo me faz olhar para os lados em busca da figura aterrorizante. Deus, por favor, ajude-me a sair dessa situação. 

4:00 - O homem que me salvou do ataque encontrou a gruta. Lancei-me debaixo dos ossos, quando ouvi o barulho de seus passos, pois jurava que o monstro havia retornado. Então, vi o feixe luminoso de sua lanterna cruzar de um lado para outro e gritei antes de levantar. 
- Eu vou me levantar. Não atire. 
- Onde você está? - a voz do homem gritou de volta. Notei que se tratava de Roberto, um dos meus companheiros do turno da noite. 
- Estou debaixo de uma pilha de ossos. - respondi, levantando-me calmamente. 
- Cara, que nojo! - ele gritou de volta. - Já levantou? 
- Sim. Estou aqui. Mira a sua lanterna. 
Vi o ponto luminoso de sua lanterna e percebi o quão longe estávamos um do outro. Acendi a minha lanterna e pisquei algumas vezes. 
- Conseguiu ver? - perguntei.
- Sim. Estou indo até você. - ele respondeu. Ouvi o partir dos ossos, à medida que ele se aproximava. Demorou cinco minutos para chegar até mim. 
- Algum sinal da criatura? - perguntei. 
- Nada. Eu corri até ela depois de ter atirado com essa belezinha. - ele falou, batendo no rifle semi-automático pendurado em seu braço. - Mas tinha desaparecido. Eu estava procurando, quando encontrei essa gruta. Essa merda é o covil dela, não é?
Eu assenti com a cabeça, tirando o celular de meu bolso.
- Encontrou os outros rapazes? – perguntei.
- Encontrei a cabeça de Carlos no pé de sua torre. Não sei nada do resto.  
- Que merda. Ei, ouça isso aqui. - disse a ele, apertando o play na gravação e entregando-lhe o celular. 
Ele ouviu a gravação até o final e me olhou com uma expressão confusa.
- Você está querendo dizer que esse merda armou pra gente? - perguntou indignado. 
- É o que parece. Não sei se é culpa dele, para falar a verdade. - respondi. - Olha isso aqui. - apontei a lanterna para meu próprio pescoço, deixando evidentes as marcas da língua da criatura. 
- Porra! Você viu alguma coisa? - ele encarou as feridas com misto de nojo e surpresa. 
- Nada. - respondi. Então, eu... MERDA!

5:00 - O monstro nos surpreendeu. Ouvimos o rosnado ensurdecedor vindo de algum lugar acima de nossas cabeças. Apontei a lanterna para cima e vi o vulto pendurado nas estalactites. Roberto empunhou o rifle e atirou. A criatura se mexeu antes que o disparo a acertasse. Eu tentava acompanhar seus movimentos rápidos com a lanterna, mas era quase impossível. Eu ouvia o barulho de garras se fixando nas formações rochosas. As estalactites começaram a se desprender do teto e a cair por todos os lados. Começamos a correr na direção do túnel, mas encontrar a pequena entrada na vasta escuridão não era algo fácil. Os feixes das lanternas dançavam de um lado para o outro, acompanhando o ritmo frenético de nossos movimentos.
Os esqueletos não estavam ali apenas como restos de alimentação. A criatura fora esperta o suficiente para deixar o solo o mais irregular possível, atrasando suas vítimas. Quando finalmente avistamos a entrada, ouvi um grande baque atrás de mim. Virei-me para trás e vi a nuvem de pó branca que subia dos ossos partidos. A perna de Roberto havia se prendido em uma pilha de ossos e ele tombou para frente. Voltei alguns passos e o ajudei a se levantar. 
- Vamos, cara. Estamos quase lá. - eu disse a ele.
- Minha perna está presa. Caralho! - ele tentou puxar a perna e soltou um grito. - Alguma coisa está rasgando minha panturrilha, porra. 
- Desculpa por isso. - eu falei, ao mesmo tempo em que agarrei seu braço e puxei com força. Roberto gritou mais uma vez e eu ouvi o barulho da ponta óssea rasgando sua perna. 
Quando ele deu o primeiro passo, outro baque fez com que a nuvem de pó branco subisse novamente. Eu não tive tempo de sacar a pistola. A criatura perfurou as costas de Roberto e eu vi suas garras saindo pelo peito do guarda. 
- NÃO. - eu gritei, apontando a arma para a cabeça do monstro. Atirei quatro vezes sem sucesso. 
Então, as garras desceram, dividindo a parte debaixo de Roberto em duas. Vi seus órgãos internos caindo no chão e a expressão de choque em seu rosto. O monstro segurou os dois braços de Roberto e terminou de dividi-lo em duas partes. Jogou uma das partes para longe e abocanhou gigantescos nacos de carne da metade que ainda segurava na mão. 
Eu caí sobre meus joelhos e observei a cena com pavor. Eu seria o próximo. 
Mas então, minha mente se apagou e a alucinação finalmente apareceu. 
O rosto da criatura estava praticamente colado em meu. Sentia o hálito pútrido de sua respiração. As palavras articuladas pareciam pertencer a um sofisticado conde ou algo do tipo. 
- Você sabe o que eu quero. - ouvi-lo dizer. A imagem se dissipou e eu fui devolvido com violência à realidade. Ele ainda se alimentava de uma das metades de Roberto e olhava fixamente para mim. 
Eu assenti com a cabeça e ele voltou os olhos para seu próprio banquete.
Depois de comer a outra metade de Roberto, a criatura deitou-se sobre sua pilha de ossos e apagou, como uma criança exausta. Parece estar completamente ausente desse mundo. É como se estivesse hibernando.

Fico pensando nesse pacto nefasto que acabei de selar. Eu tenho uma esposa. Tenho uma filha de cinco anos que precisa da presença do pai. Eu não quero abandoná-las. Não posso fazer isso. Ele me escolheu. Será que eu deveria me sentir lisonjeado? Do que se trata isso? De alguma provação ou plano divino para me mostrar o valor da resignação? Não. Não posso acreditar que Deus tenha qualquer coisa a ver com isso. Não é possível que ele permitiria a existência de algo tão monstruoso. Isso é a ausência total e completa de Deus. O que vejo em minha frente é a representação dos piores medos humanos. 
Eu compreendo. Somos parte da cadeia alimentar, de uma forma ou de outra. Não poderia ser diferente. Só me pergunto qual seria o predador dessa monstruosidade.

Um ano depois - As feridas de meu pescoço doem, como se para me lembrar de minhas obrigações para com a criatura das trevas. Eu não prossegui com minha parte do pacto, se é isso que você está se perguntando. Resolvi esquecer de vez essa história. Minha família e eu nos mudamos para o norte do país, onde é quente o ano todo. Estamos seguros aqui. 
É claro que nunca contei a qualquer pessoa o que aconteceu. Não confio nas abordagens militares que seriam tomadas frente a essa situação. Apenas rezo para que a criatura encontre alguém que aceite o serviço sujo. 

Acabo de ter uma alucinação com a criatura. Suas mãos estavam enterradas em minha barriga, enquanto ela dizia uma única frase.
- Estou chegando até você.
Parece-me que eu tenho contas a acertar.



2 comentários:

May disse...

NOsssssssssa acabou? Quero mais!
Voce sabe que sou sua fã numero 1 ne? Parabenss! Esse conto foi maravilhoso. Mal posso esperar por mais contos.

Unknown disse...

Sensacional!! Você é ótimo!! Não pare de escrever, isso é um dom maravilhoso! Parabéns querido! Beijos