3:30 - Eu guardei o
celular de Abel no bolso e vasculhei a grande câmara à procura de alguma outra
saída. O teto era tão alto, que eu quase não podia enxergar seu limite. Ainda
não encontrei outra maneira de sair daqui senão pela qual entrei. Mas a câmara
é grande demais. Talvez exista alguma outra fresta que tenha me passado
despercebida, mas estou lutando contra o tempo. Isso é o covil da criatura e,
mais ou cedo ou mais tarde, ela retornará para cá.
Já acostumei com o cheiro
da cadaverina. Não o sinto mais com a mesma intensidade. Eu estive pensando em
algo que ouvi no depoimento de meu "chefe". O pescoço dele também foi
perfurado pela língua da criatura. Será que é uma forma dela criar uma conexão
mental com alguém? Será que eu sou o próximo responsável por manter o acordo
entre os humanos e o monstro? Não. Acho que não pode ser isso. A criatura me
largou, porque alguém atirou em seu olho. Eu me pergunto se ela teria me
soltado, caso ninguém tivesse intervindo por mim.
Estou ficando desesperado
com a imensidão desse lugar. Qualquer ruído baixo me faz olhar para os lados em
busca da figura aterrorizante. Deus, por favor, ajude-me a sair dessa
situação.
4:00 - O homem que me salvou
do ataque encontrou a gruta. Lancei-me debaixo dos ossos, quando ouvi o barulho
de seus passos, pois jurava que o monstro havia retornado. Então, vi o feixe
luminoso de sua lanterna cruzar de um lado para outro e gritei antes de
levantar.
- Eu vou me levantar. Não
atire.
- Onde você está? - a voz
do homem gritou de volta. Notei que se tratava de Roberto, um dos meus
companheiros do turno da noite.
- Estou debaixo de uma
pilha de ossos. - respondi, levantando-me calmamente.
- Cara, que nojo! - ele
gritou de volta. - Já levantou?
- Sim. Estou aqui. Mira a
sua lanterna.
Vi o ponto luminoso de
sua lanterna e percebi o quão longe estávamos um do outro. Acendi a minha
lanterna e pisquei algumas vezes.
- Conseguiu ver? -
perguntei.
- Sim. Estou indo até
você. - ele respondeu. Ouvi o partir dos ossos, à medida que ele se aproximava.
Demorou cinco minutos para chegar até mim.
- Algum sinal da
criatura? - perguntei.
- Nada. Eu corri até ela
depois de ter atirado com essa belezinha. - ele falou, batendo no rifle
semi-automático pendurado em seu braço. - Mas tinha desaparecido. Eu estava
procurando, quando encontrei essa gruta. Essa merda é o covil dela, não é?
Eu assenti com a cabeça,
tirando o celular de meu bolso.
- Encontrou os outros
rapazes? – perguntei.
- Encontrei a cabeça de
Carlos no pé de sua torre. Não sei nada do resto.
- Que merda. Ei, ouça
isso aqui. - disse a ele, apertando o play na gravação e entregando-lhe o
celular.
Ele ouviu a gravação até
o final e me olhou com uma expressão confusa.
- Você está querendo
dizer que esse merda armou pra gente? - perguntou indignado.
- É o que parece. Não sei
se é culpa dele, para falar a verdade. - respondi. - Olha isso aqui. - apontei
a lanterna para meu próprio pescoço, deixando evidentes as marcas da língua da
criatura.
- Porra! Você viu alguma
coisa? - ele encarou as feridas com misto de nojo e surpresa.
- Nada. - respondi.
Então, eu... MERDA!
5:00 - O monstro nos
surpreendeu. Ouvimos o rosnado ensurdecedor vindo de algum lugar acima de
nossas cabeças. Apontei a lanterna para cima e vi o vulto pendurado nas
estalactites. Roberto empunhou o rifle e atirou. A criatura se mexeu antes que
o disparo a acertasse. Eu tentava acompanhar seus movimentos rápidos com a
lanterna, mas era quase impossível. Eu ouvia o barulho de garras se fixando nas
formações rochosas. As estalactites começaram a se desprender do teto e a cair
por todos os lados. Começamos a correr na direção do túnel, mas encontrar a pequena entrada na vasta escuridão não era algo fácil. Os feixes das
lanternas dançavam de um lado para o outro, acompanhando o ritmo frenético de
nossos movimentos.
Os esqueletos não estavam
ali apenas como restos de alimentação. A criatura fora esperta o suficiente
para deixar o solo o mais irregular possível, atrasando suas vítimas. Quando
finalmente avistamos a entrada, ouvi um grande baque atrás de mim. Virei-me
para trás e vi a nuvem de pó branca que subia dos ossos partidos. A perna de
Roberto havia se prendido em uma pilha de ossos e ele tombou para frente.
Voltei alguns passos e o ajudei a se levantar.
- Vamos, cara. Estamos
quase lá. - eu disse a ele.
- Minha perna está presa.
Caralho! - ele tentou puxar a perna e soltou um grito. - Alguma coisa está
rasgando minha panturrilha, porra.
- Desculpa por isso. - eu
falei, ao mesmo tempo em que agarrei seu braço e puxei com força. Roberto
gritou mais uma vez e eu ouvi o barulho da ponta óssea rasgando sua
perna.
Quando ele deu o primeiro
passo, outro baque fez com que a nuvem de pó branco subisse novamente. Eu não
tive tempo de sacar a pistola. A criatura perfurou as costas de Roberto e eu vi suas garras saindo pelo peito do guarda.
- NÃO. - eu gritei,
apontando a arma para a cabeça do monstro. Atirei quatro vezes sem
sucesso.
Então, as garras
desceram, dividindo a parte debaixo de Roberto em duas. Vi seus órgãos internos
caindo no chão e a expressão de choque em seu rosto. O monstro segurou os dois
braços de Roberto e terminou de dividi-lo em duas partes. Jogou uma das partes
para longe e abocanhou gigantescos nacos de carne da metade que ainda segurava
na mão.
Eu caí sobre meus joelhos
e observei a cena com pavor. Eu seria o próximo.
Mas então, minha mente se
apagou e a alucinação finalmente apareceu.
O rosto da criatura
estava praticamente colado em meu. Sentia o hálito pútrido de sua respiração.
As palavras articuladas pareciam pertencer a um sofisticado conde ou algo do
tipo.
- Você sabe o que eu
quero. - ouvi-lo dizer. A imagem se dissipou e eu fui devolvido com violência à
realidade. Ele ainda se alimentava de uma das metades de Roberto e olhava
fixamente para mim.
Eu assenti com a cabeça e
ele voltou os olhos para seu próprio banquete.
Depois de comer a outra
metade de Roberto, a criatura deitou-se sobre sua pilha de ossos e apagou, como uma criança exausta. Parece
estar completamente ausente desse mundo. É como se estivesse hibernando.
Fico pensando nesse pacto
nefasto que acabei de selar. Eu tenho uma esposa. Tenho uma filha de cinco anos
que precisa da presença do pai. Eu não quero abandoná-las. Não posso fazer
isso. Ele me escolheu. Será que eu deveria me sentir lisonjeado? Do que se
trata isso? De alguma provação ou plano divino para me mostrar o valor da
resignação? Não. Não posso acreditar que Deus tenha qualquer coisa a ver com
isso. Não é possível que ele permitiria a existência de algo tão monstruoso.
Isso é a ausência total e completa de Deus. O que vejo em minha frente é a
representação dos piores medos humanos.
Eu compreendo. Somos
parte da cadeia alimentar, de uma forma ou de outra. Não poderia ser diferente.
Só me pergunto qual seria o predador dessa monstruosidade.
Um ano depois - As
feridas de meu pescoço doem, como se para me lembrar de minhas obrigações para com a
criatura das trevas. Eu não prossegui com minha parte do pacto, se é isso que
você está se perguntando. Resolvi esquecer de vez essa história. Minha família
e eu nos mudamos para o norte do país, onde é quente o ano todo. Estamos
seguros aqui.
É claro que nunca contei
a qualquer pessoa o que aconteceu. Não confio nas abordagens militares que
seriam tomadas frente a essa situação. Apenas rezo para que a criatura encontre
alguém que aceite o serviço sujo.
Acabo de ter uma
alucinação com a criatura. Suas mãos estavam enterradas em minha barriga, enquanto
ela dizia uma única frase.
- Estou chegando até
você.
Parece-me que eu tenho
contas a acertar.
2 comentários:
NOsssssssssa acabou? Quero mais!
Voce sabe que sou sua fã numero 1 ne? Parabenss! Esse conto foi maravilhoso. Mal posso esperar por mais contos.
Sensacional!! Você é ótimo!! Não pare de escrever, isso é um dom maravilhoso! Parabéns querido! Beijos
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